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24.8.11

Uma história para uma arma

Sua cabeça rodava naquela noite, as paredes amarelas brilhavam, seus olhos ardiam, o ar faltava. Assistiu um filme uma vez que descrevia isso como crise de ansiedade. Crise nada. Era só desespero.
Tudo começou quando comprou aquela arma. Disseram que seria melhor assim, ela já não tinha muita certeza do que fazer, então comprou a arma.
Depois de um mês olhando pra arma, limpando, guardando, percebeu que não fazia sentido comprar algo que não ia usar. Ela comprava sapatos que usava, roupas que usava. Nunca foi dessas que gasta por gastar. Isso não podia continuar assim, só tinha uma coisa a fazer: usar a arma.
No dia seguinte de manhã, colocou a arma na bolsa e saiu para trabalhar. Em todo o seu dia olhou para as pessoas e para as coisas pensando quando lhe dariam a oportunidade de usar a arma. Porque uma arma para ser usada, pensava ela, não podia ser simplesmente sacada e disparada. Era preciso uma história. Perseguiu qualquer pista que pudesse se tornar uma história. As fofocas das recepcionistas sobre o caso entre a diretora e o segurança. A briga entre duas assistentes no café. Mas eram histórias dos outros, não conseguia entrar nelas para usar a arma. Se dependesse de suas histórias nunca conseguiria, ela já não tinha histórias.
Resolveu ajudar o acaso. Ficou até mais tarde no trabalho e só saiu quando estava escuro e perigoso. Com a mão dentro da bolsa, torceu ser abordada por um ladrão ou maluco qualquer. Nada. Desceu do ônibus alguns pontos antes para ver se alguém a seguia. Nada. Foi dormir preocupada. Ela precisava usar a arma, precisava de uma história.
A semana toda ela deu asas a esta ideia e nada aconteceu. Na sexta pensou em se matar. Mas porra, ela não queria morrer, ela só queria usar a arma! Vender não era uma opção. Ela não vendia suas roupas ou sapatos. Suas coisas ela usava e depois jogava fora ou dava para alguém. Não podia jogar fora ou dar algo que ainda nem tinha usado. Nunca achou que fosse tão difícil conseguir usar uma arma.
Agora, andando pelo quarto em desespero, com as costas curvadas, apertando os próprios braços, descalça, descabelada, ela olha para a arma na cama. Já se passaram 3 semanas nessa luta. Ninguém vive tanto tempo sem um acontecimento. Nem uma barata invadiu seu banheiro para que ela pudesse atirar. A arma estava ali, parada, limpa, brilhando, nova. O que mais a incomodava era o porquê. Porque ela não tinha nenhuma história para encerrar com um tiro? Porque nada acontecia que lhe desse um motivo, uma desculpa?
Chegou a conclusão que isso era infelicidade. Porque chorar por acontecimentos tristes era ruím, mas eles passam e ficam as histórias. Ela não tinha histórias, nada lhe acontecia, nada bom, nada ruim. Ela só tinha uma arma que não podia usar.
Ouviu a porta abrir. Juliano estava viajando este tempo todo. Chegou. colocou a mala na sala e chamou seu nome. Ela olhou para a arma. Juliano detesta armas, falou para ela não comprar esta coisa. Respondeu com voz trêmula "estou no quarto". Ouviu seus passos e sua voz de moleque "é aí que te quero mesmo". Pegou a arma. Juliano ficou parado na porta, olhando assustado. "Diga que você me traiu!" "Está maluca? Eu não te traí!" Ela atirou. Sentiu o alívio no corpo, sorriu.

6 comentários:

  1. Viajei aqui, como se estivesse assistindo ela pra lá e pra cá com a arma.

    Ficou excelente Mica, como eu sempre disse jamais conseguirei chegar a seus pés rs

    ps: que dó do Juliano =(

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  2. Mica, tá ÓTEMO! Queria saber escrever assim... me ensina? rs
    Dá pra sentir o peso da arma na mão dela mas...

    Mas "comentando o comentário" do Dinegunner: que dó do Juliano porque? Não diz em nenhum momento o que aconteceu com ele depois da arma disparada! E esse que é o tcham do negócio. Será que ela não queria apenas dar um susto? atirou na parede, o bixo se mijou todo, ela ficou feliz, depois botou ele pra fora...
    Prefiro pensar assim: "finais que deixam a gente pensar!" ;)

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  3. Muito, muito obrigada meninos!!!

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  4. Nossa que mulher má essa .. adoro mulheres assim, de personalidade, ela queria e fez. Clap clap clap pra ela

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  5. Obs: só não sei se acertou, mas que tentou ela tentou!!!

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