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14.8.11

Meu Pai


Eu nunca falo muito sobre o meu pai. Ele morreu quando eu tinha 13 anos, a maior parte da minha vida, estou sem ele. Terminei de crescer sem ele, virei adulta sem ele. E me acostumei tanto com esta situação, que estranho encontrar amigos com a minha idade e terem pai. Encontrei muitas pessoas na vida na mesma situação que eu, outros tantos que nunca conheceram os pais, mais ainda os que perderam contato pela separação. Na família não é diferente. Venho de uma família de mulheres. Minha mãe, suas irmãs e minha sempre foram o lado forte. Guerreiras, enfretaram doenças, mortes, traições, separações. Criaram seus filhos e fizeram suas vidas sozinhas. Então, pai para mim é lembrança.
Por sorte as lembranças do meu são as melhores que uma filha poderia ter. Meu pai era protetor, era racional, era contestador, era político, era forte, era atleta, era meu exemplo. Eu me lembro dos dias que sentia medo, corria pro colo dele e ele ria me protegendo. Eu me lembro do jeito prático e organizado dele olhar as coisas da casa, do dia a dia, se envolvia nas compras, fazia a feira, a vitamina de frutas toda manhã. Eu me lembro dele falando mal dos políticos, assistindo e comentando o jornal, arrumando soluções para tudo. Eu me lembro dele contando todos os esportes que já fez na vida: ginástica olímpica, futebol, boxe, canoagem. Foi ele quem me ensinou a fazer parada de mão quando isso virou febre, foi ele que me consolou quando as meninas da ginástica olímpica desceram a lenha em mim numa apresentação, foi ele que me mostrou o quanto eu tinha ido bem e por isso fui detonada.
Eu me lembro dele falando. Ele vinha para casa no horário do almoço, almoçávamos juntos, só nós dois e ficávamos conversando até dar o meu horário de escola. Nesses momentos meu pai contava da sua vida. Contava dos amigos, das namoradas, das viagens, de tudo que aprontou. Foi ele que me disse para não acreditar nos meninos, que a maioria só ia querer curtir e que eu devia fazer isso também. Foi ele que disse que deveria aproveitar e só trazer namorado em casa quando fosse para casar. Foi ele que disse para não casar nova e terminar a faculdade antes. Ele me contou de quando foi acampar na serra, no caminho pra Santos. Contou de quando ele e os amigos entravam clandestinamente no Clube Tietê pela margem do rio. De quando quebrou o nariz porque foi sacaneado pelo cara que deveria o segurar numa parada de mão no ar e simplesmente o soltou, deixando-o cair de cara na areia. Contou quando teve chances de se mudar para o EUA e não foi porque sua mãe pediu. Contou de quando fumou maconha aos 16 anos e detestou. Contou das meninas na igreja, nos bailes de carnaval. Do cara que ameaçou ele no trânsito com uma faca e fugiu quando ele foi pra cima mesmo assim. Horas de histórias que eu ouvia sorrindo e admirando: "Esse é o meu pai".
Foram só 13 anos juntos, mas com tantas histórias e falas, que até hoje é ele que eu procuro quando preciso de proteção. Nos momentos mais tristes da minha vida, eu abraço o travesseiro e só consigo pensar "pai me ajuda denovo". E sempre vem uma frase que um dia ele disse, um abraço, uma lembrança que me acalma e me faz dormir. Meu pai é meu lado espiritual, como para algumas culturas, que acreditam que os antepassados são nossos protetores e guias. Sua força e suas histórias me acompanham e me confortam. Talvez por isso tenha sido tão fácil lidar com sua morte. Faz 21 anos que não está aqui, mas sempre está em mim.

9 comentários:

  1. imagine eu escrevendo!? foi emocionante.

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  2. flavius1:41 AM

    Chorei aqui tb guria.. uma linda imagem de um lindo sentimento!

    Espero que essa imagem, dessa pessoa, te acompanhe para sempre. Não acredito em espírito, não acredito em outras vidas, acredito sim em exemplos de vida!

    Pelo visto, eu acredito muito no teu pai!

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  3. Ownnnn Flá, obrigada! É isso mesmo, não o espírito, não é assobração rsrs é o exemplo, é a lição. Por isso digo que está aqui dentro.

    E apesar de te conhecer bem pouquinho, acho que vc ia adorar ter conhecido ele. Ia ser insuportável ver vocês conversando rsrs

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  4. Por isso, eu sempre digo, não importa o tempo, e sim a qualidade. Tem pessoas que vivem anos e anos ao lado de alguém e nunca tive nem metade dos momentos que você teve nesse 13 anos. Se sinta uma pessoa de sorte, por ter tido um pai tão especial. E por ter tantas lembranças boas.

    Quando eu li eu fiquei muito emocionada, não só pelo seu texto, mas tbm pela minha história, que é tão diferente da sua!!!
    bjos lindona

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  5. Eu imaginei tudo hoje, menos me emocionar do tanto que eu me emocionei!Que lindo...vc abriu o meu baú de saudades e bati aquela Futton(edredon em coreano) com cheiro do meu pai.
    Parece que eles sabem que vão embora cedo, a intensidade de viver deles é enorme!Vc vive pelos acertos do seu pai e eu pelo erros do meu, mas no final, o sentimento é o mmo.A Paixão deles fica para sempre!!!

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  6. É difícil isso... "Perdi" meu pai há um mês e meio, mas eu falo perdi entre aspas porque sei que ele vai estar sempre aqui.
    Me arrependo por não ter sido uma filha melhor para ele, mas isso serve de lição para eu ser uma filha melhor para minha mãe, uma irmã melhor, uma prima melhor, uma amiga melhor, uma pessoa melhor. Se você passa pelos sofrimentos e perdas da vida sem aprender nada, é porque você sofreu em vão, então tento sempre levar alguma coisa de positivo até nas piores horas.
    A vida é única nesse nosso corpitcho da vez, então vamos tentar aprender ao máximo visando sempre a evolução espiritual.
    Fisicamente não está mais aqui ao nosso lado, mas está dentro de nós, no mais puro sentimento de amor.

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  7. Clau, depois de anos de terapia e trampando com educação eu aprendi que o mito do pai e da mãe é só isso, um mito. Eles são pessoas normais e fazem suas merdas. O melhor querida, é olhar friamente pra ele como vc olha pra qualquer outro. Tem razão, eu tive sorte. Vi muitas crianças que não tiveram e eu sempre estimulava-as a simplesmente abrirem mão do mito. Ajuda muito.

    Sun, obrigada. Tem toda razão, erros também são lições.

    Bárbara, nunca há momento certo pra morte. Nem nunca há culpa. Você fez o que podia até aí, só isso. O que mais me fez entender a morte do meu pai, foi saber que eu não tinha culpa, ninguém tinha.

    Meninas, obrigada, nunca imaginei que esse post fosse mexer tanto com as pessoas, achava que ia mexer só comigo rsrs bjos

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