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10.11.13

Domingo de sol e R.E.M

As mudanças que fiz no blog ontem e hoje reacenderam a vontade de escrever muito e muito aqui. Confesso que estava sem tema, mas o domingo de sol lindo que está fazendo no vilarejo me fez lembrar de um dia especial. 
Quando morava na província e dividia o apartamento com uma amiga, acordei num domingo como este bem cedo, fui fazer o café e coloquei R.E.M. pra tocar. O dia estava com cara de R.E.M. e foi uma sensação ótima quando a música começou a rolar. 
Depois de tocar umas duas músicas, minha amiga e seu rolinho saem do quarto sorrindo, me agradecendo e dizendo que foi delicioso acordar ouvindo R.E.M., que combinou perfeitamente com aquela manhã de sol. 
Então, aqui vai, R.E.M pra vocês :)


o eMe design é aqui


Este era o nome do meu blog sobre design de interiores, onde falava da área, coisas afins e divulgava o meu trabalho como designer e consultora de feng shui. Era, porque eu acabo de excluí-lo. 
Formei-me em designer de interiores pelo SENAC em 2007 e investi até metade do ano passado na carreira. Tive bons clientes e bons projetos. Fui fazendo os ajustes necessários e de 2009 pra frente investi mais nas consultorias em feng shui, onde fui ainda mais feliz. 
Mas a vida tem aquela mania de ir te levando pra onde ela quer e de repente me vi super envolvida com administração pública e amando a área, pensando em fazer pós e tal.
Ainda assim mantive o blog. Meu coração ainda doía de abandoná-lo totalmente. Mas a verdade é que desde janeiro não o atualizei uma única vez sequer. 
Percebi então que por mais que eu ame a área, o design entrou pro rol de experiências e capacidades que tenho. Não vou negá-lo e nem fechar as portas totalmente. Acho que nunca farei isso. Mas se é algo que faz parte de mim, então, tem que estar aqui no meu blog pessoal, onde me abro toda. 
Por isso importei o eMe design para cá. Vocês podem acessar as postagens antigas através do marcador e conferir as novas que virão por aí. Beijinhos.

1.9.13

30 rock: 36 dói


Fazer 36 anos está doendo já faz uns dois meses. Sensação de velhice mesmo. Aquela coisa de está mais perto dos 40 do que dos 30, agravada pela expectativa de vida para minha geração, que indica que 40 é metade dela. Dói.
Dói porque insatisfação é meu nome do meio. Insatisfação. Não ingratidão. Sei o que está bom, o que conquistei, o que vale ser aplaudido. Mas há pontos cruciais na minha vida, que afetam meu cotidiano, que venho lutando como uma vaca e só tomando na cara. E já tenho 36 e ainda estou tomando na cara sem saber como é que vou fazer pra mudar isso.
Se eu tivesse escrito este texto até o dia 30, daqui pra frente ele seria cheio de reflexões sobre estas questões. Sobre minhas dúvidas existenciais e minhas faltas. Entretanto, hoje é o primeiro dia do meu próximo ano, um domingo de sol lindo e eu estou de bom humor.
Entre as muitas mensagens lindas e calorosas que recebi (carinho aquece né!?), uma me lembrou a amiga Priscila Valdes dizendo em um ano novo que passamos juntas "preste atenção em como será o seu primeiro dia, porque essa será a sintonia do seu ano" ou algo assim que a velhinha aqui já não lembra as palavras exatas, mas lembra da conversa que é o importante. 
Então, começo meu novo ano com esperança (novamente, essa coisa estranha que não me abandona). Pode ser bom de novo, posso fazer novas escolhas, vai que dessa vez acerto! Mais do que isso, começo meu novo ano escrevendo. Estou escrevendo desde as 7h, quando acordei (não este texto apenas, várias coisas). Porque escrever é parte daquilo que me dá sentido e faz 36 anos parecer 23. 

31.8.13

22.7.13

Sobre críticas, a vida e a morte


Estava há pouco gastando meu tempo na frente da TV e ouvi um participante do Project Runway dizer "é difícil porque eles estão criticando a sua alma". Identifiquei-me. Muito. 
É exatamente esta a sensação que dá receber uma crítica ou um elogio para o que escrevo. Quando o faço, é a minha alma que vai para o papel (ou para a tela). Não importa se é uma poesia, um conto, um texto político ou uma crônica pessoal. Coloco o que sinto, o que vejo, o que reflito, o que acredito. Estou ali, nua, exposta, vendo os dedos apontados para mim dizendo coisas boas e ruins.
Quem critica está criticando a obra. O texto está bom, não está. Mas para quem está sendo criticado soa diferente. Algo como "você é bom, você não é". 
A primeira coisa que tive que aprender foi a lidar com a crítica. Críticas e elogios são necessários. Para que eu possa aprimorar a arte que escolhi, é necessário um feedback. Ninguém escreve só para si mesmo, mesmo que este seja o primeiro objetivo. Se assim o fosse, não era necessário publicar. Por isso é muito ruim o silêncio. O silêncio é a pior reprovação que poderia receber. É como dizer "isso que você fez não me causa nada".
E considero que isto não é uma característica só da escrita. A arte é assim. O artista se coloca no que produz e aguarda o impacto que causará. Fica esperando para ver a reação das pessoas. Vão gostar, vão se surpreender? Que emoções sentirão e como as devolverão ao artista? 
Quando fiz o curso de design de interiores, as apresentações de projetos eram emocionalmente estressantes. Além do processo de criação e dos percalços pelos quais passávamos para conseguir fazer o projeto, tínhamos que expô-lo à avaliação dos professores e das outras alunas. Lembro de todas as críticas que recebi, lembro o quanto doeram e o quanto tentei aprender com aquilo para me tornar uma designer. Mas uma das coisas que mais me incomodava era que não havia uma direção. Os defeitos estavam apontados. Ok. Então eu perguntava "mas fora os defeitos, fora isso, como está o projeto?" E nunca recebi uma resposta. Acho que não soube me expressar naquela época, mas o que eu queria era saber mais sobre tudo o que coloquei ali, o conceito foi compreendido? Há público para o que eu estou propondo? Dá para perceber um estilo? Tem forma? Porque colocar a alma no papel é difícil e, muitas vezes, só nós mesmos conseguimos entender o que fizemos.
Estas reflexões vieram junto com outras que estão me assombrando neste julho-inferno-astral. Este ano, somar mais um ano a minha idade está doendo. Fazer 36 anos está doendo. Estou questionando a vida, os sonhos, os planos. Estou lidando com aquele vazio do "não era assim que eu queria estar vivendo". 
Posso ainda somar a estas reflexões (e neuras) um triste acontecimento desta semana. Minha tia Dalva morreu. Além da dor do luto e da saudade, enquanto eu estava lá, olhando para ela e me despedindo, eu só conseguia pensar "não é justo, não deu tempo dela resolver várias coisas, não deu tempo de ver que logo tudo ficará bem novamente". Isso é muito injusto. 
Então minha necessidade de fazer a vida acontecer se intensificou, porque eu já tenho certeza de que não vai dar tempo. Não vai dar tempo de ler todos os livros que quero. Nem de viajar para o mundo inteiro. Nem de ver todos os shows que desejo. Não vai dar tempo de escrever tudo que imagino. Não vai dar tempo de muita coisa. Mas a vida e a morte são assim, injustas. Como algumas críticas. Às vezes. 

23.6.13

O perigo da informação falsa


Acho que sou uma viciada em fontes e créditos. Talvez porque escrevo e acho muito, muito ruim, não receber os créditos pelo que eu fui capaz de fazer e outro não. Da mesma forma, me preocupa a autoria indevida. Falei sobre isso no texto "Você pode assumir o que pensa, não precisa dizer que foi a Clarice Lispector", abordando especificamente a atribuição de frases NADA A VER* a famosos. Entretanto, apesar de ser quase a mesma coisa, quero me centrar desta vez na atribuição indevida de frases aos políticos que não gostamos. 

Com a nova onda de manifestações e protestos, cresceu o número de compartilhamentos, postagens e afins envolvendo os anseios e críticas políticas da galera. Acho lindo. Acho que demorou. Fico realmente contente de o povo pensar "é, tem um monte de coisa acontecendo, preciso entender melhor isso". E aos pessimistas já respondo que sim, os acontecimentos despertaram muita gente que sequer sabia o nome do governador do estado. Provavelmente esse será um dos ganhos. 

Mas aí o povo nunca ligou muito pra isso e vai se enfiando, lendo sem entender muito bem e reproduzindo. Ou compartilhando, passando pra frente. Foi aí que minha sirene de perigo soou. Tenho visto várias publicações mentirosas sendo super curtidas, compartilhadas, retuitadas e blábláblá. Porque fazem isso? Pela velha mania de confiar e não ir atrás de verificar a veracidade da informação que está passando pra frente. O que é muito, muito perigoso. É como agir igual a Globo (eu diria imprensa, mas assim fica mais fácil de entender). 

Quando repassamos uma mentira, qual é o objetivo? Difamação. E difamar um político por frases ou atos não cometidos vai mudar O QUE!? Não seria interessante, ou inteligente, ou JUSTO, que apenas o difamássemos com as merdas que ele faz e fala mesmo? Sério que precisa inventar? Além de ser totalmente desnecessário, já que nossos políticos nos oferecem grande material de difamação pessoal diariamente, pode ser enquadrado de várias formas, até crime.

E quem será que joga a fofoca de tiazinha na rede? Quem será que atribui uma frase ou um ato a um político ou partido X, para difamá-lo? Está claro que o outro partido, o outro político, os outros interesses né!? E você está lá, pagando de mané e divulgando uma informação que pode prejudicar a eleição, a imagem, o país. Chega a ser ingenuidade (dependendo da sua idade). 

Você deve sim compartilhar o que pensa, o que acredita. Criticar políticos, governos, partidos, ideologias, sejam quais forem os que você escolheu. Mas o faça com críticas embasadas, não com mentiras. Leia, estude, informe-se, confira a fonte, a veracidade. Pense. Reclamamos dos políticos que mentem, então mentimos para detoná-los! Ó, que inteligente! 

Não dá pra desejar um país mais justo se você quer mudar as coisas na base da mentira.

(* detesto capslock, mas usei para aumentar a ironia - leia como seu amigo gay falaria). 

14.6.13

Eu também quero falar


Estou numa cruzada por divulgar e defender as manifestações em São Paulo desde ontem. Vi e li tanta coisa que não aguento mais: eu também quero falar.
Começamos assistindo milhares de pessoas saírem de suas casas para protestarem contra algo muito específico: o aumento da passagem de ônibus. Isso representa o aumento do custo para se viver numa cidade como São Paulo, que tem um dos maiores custos de vida do Brasil. Representa a diminuição do poder de compra de todos aqueles que dependem de transporte coletivo. Representa que cortes na vida diária deverão ser feitos: talvez a cervejinha no fim de semana (mas também pra que beber?), ou a manicure (isso não é necessidade!), ou ainda a bolacha recheada que a criança pede no mercado (e desde quando criança precisa disso?). Representa que sua qualidade de vida vai diminuir, seus poucos prazeres talvez tenham que ser cortados, alterados ou diminuídos também, representa que você vai viver como se deve: trabalhando, pagando conta e sem reclamar.
Mas as pessoas estão cansadas de perder e decidiram reclamar. Há muito tempo estamos perdendo. Perdemos perspectivas, perdemos qualidade de vida, perdemos a esperança. Quando se perde tudo há duas coisas que acontecem: você resolve correr atrás do que perdeu ou desiste. Acredito até que desistimos por muito tempo. Eu desisti. Desde a adolescência envolvida em algum tipo de luta por uma sociedade mais justa, acabei me restringindo aos textos (até porque é o que faço de melhor mesmo). 
Então, no desenrolar dos acontecimentos, percebemos que simbolicamente este aumento representa também um cerceamento do nosso direito constitucional de ir e vir. Não é bem assim, pode ir e vir se puder pagar o preço disso. 
Então ontem aconteceu o pior. E o melhor. Ontem ficou claro para todos nós: perdemos o direito de nos manifestar contra. Não se pode mais ser contra nada e se for esteja preparado, você será agredido. Pela polícia, pelo governo, por quem não concorda com você, por quem desistiu, por quem tem dinheiro pra pagar o aumento, por quem vai ganhar dinheiro com o aumento, pelas mídias tradicionais, por quem acha que só por que tem carro não será beneficiado com a sua luta, por quem não tem a menor ideia do que as palavras direito, manifestação, justiça e igualdade, significam.
Perceber tudo isso reacendeu em mim a velha chama adolescente de "eu quero mudar o mundo" e, nossa, como é bom senti-la viva no peito. Quando li sobre as manifestações no Rio, em Porto Alegre e em Brasília só conseguia pensar em uma coisa: isso galera, em todos os lugares, vamos pra rua. Vamos nos manifestar pelo direito de nos manifestar. Vamos enfim dizer: não, aqui não malandro! Que não seja mais um #protestosp, mas um #protestobr.

Há dois pontos mais práticos que ainda quero falar. 

 - Acha o valor irrisório? Faça as contas: ida+volta= 6,40. Considerando uma pessoa que pega apenas um ônibus para trabalhar. Mensalmente isso dá R$ 192,00. Só para trabalhar. Nada de lazer, visitar a família, ir ao médico. O salário mínimo (e sim, tem muita gente que ganha só UM salário mínimo) é R$ 755,00. Isso significa que sobraram para esta pessoa R$ 563,00 para sobreviver. Significa que ela gastará cerca de 25% do seu salário com transporte SÓ para ir trabalhar.

- Li muitas postagens criticando as pessoas que estão divulgando na internet o que lêem, mais ainda àquelas que estão se manifestando a favor. Sou contra vocês. Porque pior do que quem é contra as manifestações por alguma questão política, é quem é contra quem está enfim tentando fazer parte desta história de algum jeito. "Ah era Renan, era Feliciano, tomate, agora é SP". Sim. E se surgir outro problema social que incite as pessoas, será esse. Porque quando o moleque que não entende nada, nem é politizado, lê a manifestação de quem entende e decide compartilhar, ele está escolhendo um lado. Aliás, uma escolha mais favorável a mudança do que a sua, que se acha O espertão por tentar ridicularizá-lo. Aliás isso faz parecer que o problema é justamente este: você que não está fazendo nada se considera melhor do que quem está compartilhando informação. Já está mais que provado que informação é o grande motor das mudanças no mundo, chegou a hora de você repensar. Não tem nada que contribua realmente para o debate? Então assista, fique quieto, se informe, leia e depois decida o que dizer.

"que eu me organizando posso desorganizar
que eu desorganizando posso me organizar"
(Chico Science)

25.5.13

Ausência


Um das poesias que mais amo e uma das poucas que eu sei de cor, já que minha memória é uma mentira, é “Ausência” do Drummond:

Por muito tempo achei que a ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje  não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Triste. Mas de uma tristeza que acompanha a vida e não faz mal de verdade. Aquela tristeza que também faz parte de quem se é, tanto quanto todas as outras características que nos formam. Dizer que ninguém tem uma tristeza lá no fundo, que de vez em quando vem à tona e balança sua vida, suas certezas e mina suas forças é mentira. Ou psicopatia. 
A minha é de uma força assustadora as vezes. Ela vai chegando e dominando meu pensamento, meus dias, meus olhos. Até que chega o momento em que somem todos os pensamentos e todos os outros sentimentos. Fica só um vazio triste, de quem olha pra dentro e já não se encontra ali. 
Tudo perde o sentido. Torno-me por uns dias um robô. Automaticamente vivo meus dias como todos os outros, mas ao invés daquela sensação de bem estar e satisfação constante que tenho comigo mesma e que faz até o dia mais monótono do século ser bom, passo para uma constante tristeza em que o melhor momento do dia é chegar em casa e desabar, para deixar a tristeza sair. 
Estou numa dessas fases. Sou transparente e é bem possível que muitos já tenham percebido. Mas em geral não divido minha tristeza com ninguém. Ninguém pode fazer nada, pelo contrário, às vezes nas melhores intenções dizem coisas que me desequilibram mais ainda. Desta vez, lembrei-me da poesia porque entendi que é exatamente isso que sinto: a ausência de mim. A tristeza é a saudade que sinto de mim mesma. 

28.4.13

O Brasil é um país que se faz no grito



Grito de torcida, grito no trânsito, grito na rua como cantada, grito de carnaval. Enquanto é comemoração até tem sentido, mas quando toma o lugar do diálogo é que me preocupa. 
Tenho acompanhado as discussões em torno da maioridade penal e, mais do que nunca, me ficou claro: aqui, quem grita tem razão. Ou pensa que tem, mas consegue mais adeptos. 
Vejo, de um lado, estudiosos de várias áreas – cientistas políticos, sociólogos, psicólogos, especialistas em segurança pública, especialistas em direito, estudantes e pesquisadores – com ótimos artigos e textos contra a redução da maioridade, elencando vários argumentos plausíveis, com bases em pesquisas, estudos, dados, experiência de outros países, etc. Vejo que muitos se esforçam em produzir o conteúdo de forma que até uma criança de cinco anos consiga entender. Outros ainda citam frases soltas que viraram verdadeiros slogans pela redução e as desconstroem, provando sua falta de fundamentação. 
E, de outro temos o grito. Uma galera que ouve uma única frase, acha legal, talvez até rime, e sai gritando-a por aí sem a menor reflexão, sem estudo, quase como ovelha reproduzindo o discurso, sem racionalidade. 
Haverá mudança na legislação pela força do grito? Muito dificilmente porque seria inconstitucional e para mudar a constituição o negócio é bem mais complicado. Particularmente, por conhecer o texto da nossa carta magna e por conhecer sua história, posso dizer que se tem algo que não precisa mudar neste país é a Constituição. 
Entretanto, mesmo não tendo grandes chances de vigorar, a gritaria está fazendo seu estrago e atraindo os mais desavisados... ou incultos. Reparem nas redes sociais: os compartilhamentos de quem é contra (textos, artigos, argumentos) e os compartilhamentos de quem é a favor (frases curtas, agressivas, muitas vezes de cunho pejorativo, endereçadas a quem é contra). É quase uma briga de torcida. De um lado, se propõe discussão. Do outro, se ataca quem não concorda com você. 
Isto me fez lembrar de várias questões polêmicas e das posições que as pessoas assumem frente a estas questões – aborto, casamento gay, mensalão, etc. O padrão é sempre o mesmo – um lado é capaz de conversar, discutir, argumentar. O outro lado grita. Em geral é de se imaginar que o lado mais bem fundamentado venceria a discussão. Mas não é o que acontece no Brasil. Muito provavelmente por ser a nossa educação formal ridícula, quem é ouvido é quem fala mais alto e de preferência com frases curtas e de impacto. Não importa se existem estudos e comprovação de que vai dar merda. Importa é que é só isso que a maioria da nossa população consegue entender, então sai repetindo. 
Às vezes acho que os estudiosos deviam usar do mesmo “marketing voltado para o mal”. Bolar umas frases de efeito e sair disseminando-as por aí, com certa raiva na voz, batendo na mesa e chamando pra briga. Mas o conteúdo é incompatível com essa atitude homem das cavernas e não sei se daria certo. 
O que sei, com toda certeza, é que com essa atitude lamentável estamos construindo um país no grito. Um país raso, incapaz de produzir conhecimento que garanta justiça e equidade, que continuará não representando a maioria, que continuará deixando que uns imponham suas opiniões através da força e da violência, que continuará ensinando aos menores que se você quer algo, tem que fazer acontecer. Aí o menor vai lá e mata pelo tênis.

7.4.13

Você pode assumir o que pensa, não precisa dizer que foi a Clarice Lispector

Dias atrás me deparei com postagens no Facebook de frases atribuídas ao escritor (e ídolo) José Saramago. Na hora meu estômago embrulhou. Ver frases de autoajuda com ideias totalmente senso comum e um português muito mal escrito com o nome de um prêmio nobel de literatura, defensor ferrenho da língua portuguesa, foi chocante.

Frase atribuída que me irritou. 

Na hora já tuitei que era desrespeitoso e que antes de sair postando e compartilhando as pessoas deviam pesquisar a veracidade da autoria. Um amigo então acabou com minha alegria "o pior é que se for pesquisar, encontrará 'jurisprudência' no Google". É possível. É possível que se jogarmos a frase lá encontraremos o Saramago como autor, pelo simples fato que tanta gente já postou e reproduziu a ofensa, que ela está disseminada na rede. 
No entanto, se você pesquisar sobre o autor e também ler algo dele (um livro, um conto, uma entrevista) poderá comparar a linguagem e elementos que, se não forem conclusivos, ao menos suscitarão dúvida suficiente para não correr o risco de divulgar informação errada.
Mas porque isso é importante? Porque é desrespeito com o autor e sua obra, em alguns casos até calunioso. Você pode achar bonito, uma mensagem boa, mas pode ser absurda para o autor. O exemplo clássico disso são frases citando deus e fé atribuídas a Charles Chaplin. O ator era ateu. Então não é desrespeitoso com sua memória, lhe atribuir uma frase de algo em que ele não acreditava? Pense na situação contrária. Você crê em deus e eu começo a postar por aí fotos suas com frases dizendo que essa crença é ridícula e deus não existe. Você não se sentiria ofendido?


Você crê em deus e vai pensar "mas no meu caso, estou divulgando uma coisa que é boa". Entretanto, Charles Chaplin não acreditava e nem saía por aí discursando coisas do tipo, então você está difamando o autor na medida em que transforma a sua imagem pública e a sua obra em algo que ele não foi. É o velho colocar palavras na boca de outro.
A coisa é muito simples: gostou da frase, pesquisou, ficou na dúvida - publique só a frase. Aposto que a pessoa sem noção que gastou tempo fazendo imagem com foto e autor fake para uma frase que ela criou, não vai se importar com direitos autorais.
E isso nos leva a pensar o porquê. Por que uma pessoa prefere colocar um nome de famoso, atribuir sua opinião a alguém de renome, ao invés de assumir o que pensa? Medo das consequências? Não confia no próprio taco? Acha sua opinião tão pequena que não será suficiente para ter valor? Prefere mentir e se passar por outro a ser transparente sobre quem é?
Nenhuma das hipóteses levantadas levam à boas conclusões e, realmente, alguém assim não merece crédito.
Por isso, se a frase te levou a refletir sobre sua vida e acha que mais gente pode se beneficiar com esta reflexão, escreva você sobre isso. Cria a sua frase, aproprie-se do conhecimento, exponha sua reflexão. Chega de gente covarde que não assume quem é o que pensa.

30.3.13

Sobre o casamento e o fracasso


Acabo de ler na reportagem especial sobre casamento da revista TPM que mulheres acima dos 30 anos que não casaram são consideradas fracassadas. Gargalhei. Não porque acho que a revista esteja errada, acho super possível que esta seja a visão da sociedade. Mas porque eu tenho 35 anos, sou solteira e NUNCA me vi assim. Ler que é assim que muita gente me vê foi engraçado, foi como se me dissessem que as pessoas me vêm como um ornitorrinco, literalmente. Muito engraçado!
Já me senti fracassada diversas vezes na minha vida, antes mesmo dos 30. Quando não suportava mais a educação, foi horrível. Eu pensava "invisto nisso desde os 14 anos de idade quando entrei no magistério, são 14 anos investindo e não cheguei a lugar nenhum, mal pago minhas contas". E isso me levou ao stress e depressão, diagnosticados em consultório, não é figurativo. 
Aliás vida profissional faz eu me sentir fracassada. Porque é algo que eu estou fazendo, estou ali escolhendo, estudando, me dedicando e tenho um objetivo com isso. Então, quando dá errado, me sinto fracassada. Hoje já sei lidar com o fracasso e não fico mais doente. 
Não realizar um sonho me faz sentir fracassada. Porque no fundo, só os sonhos importam. Já falei sobre os meus aqui. Mas casar, nunca foi um sonho pra mim. "Ai Micaela, você é contra o casamento?" Quase isso. Sou contra a vários modelos de casamento que vejo por aí. Não me encaixo neles, não seria feliz neles. Aí sim, me sentiria fracassada. 
Gosto ideia de construir algo juntos, gosto da ideia de cuidado, gosto da ideia sentimento. Mas não lido bem como os papéis pré estabelecidos. Sei que muita coisa mudou, mas ainda vejo um papel muito específico a ser desempenhado pela mulher que não me agrada. Ainda vejo que o cara tem sua vida e tem um relacionamento, enquanto a mulher faz do seu relacionamento a sua vida. "Ah, mas é só você não cair nessa". Sim, e achar alguém que tope né?! Porque no fundo, os caras ainda esperam esta exclusividade e não lidam bem quando a coisa não é assim. 
Este é o ponto que tornou casar ou não casar irrelevante pra mim. Meus sonhos, minhas realizações, têm mais importância pra mim que qualquer relacionamento. Se no percurso surge um relacionamento, ok, vivo isso. Mas se ele passa, passa. O mais importante é o que fica, e sou eu e meus sonhos que ficamos.
Imagino a quantidade de garotas que torna o casamento sua realização maior. Não casar as fariam se sentir fracassadas e é assim que devem enxergar a mulherada como eu, solteira pós 30. Imagino a incredulidade ao ouvir que não, não me sinto fracassada por isso e estou bem assim. Nem preciso imaginar muito porque já dei de cara com isso várias vezes na vida. 
O casamento pode estar mudando em termos práticos, mas a visão sobre ele é mesma da época da minha vó. Por isso é impossível aceitar que uma mulher solteira possa se sentir completa e feliz. Para alguns é difícil aceitar que ela possa se sentir mulher. Desculpe decepcioná-los. Sou mulher, solteira, com mais de 30, feliz e muito preocupada em como vou realizar meu sonho de continuar dançando, escrever meus livros e conhecer o mundo inteiro. Se alguém quiser casar comigo, me segue aí. Porque como os homens, eu tenho a minha vida primeiro, o relacionamento é só uma coisa a mais. 

28.3.13

Carta aberta aos homens


Há algum tempo estou preparando este texto. O assunto é tão difícil e delicado que nunca acho que está suficientemente claro e bem argumentado. Muito provavelmente por dois motivos: falar de abusos sexuais que sofremos mexe com sentimentos muito profundos há tempos colocados em um lugar seguro e, por saber das possíveis reações que surgirão, já que sempre surgem. 
No entanto, expor a minha história em relação a isso é uma forma de dizer pra vocês que estão lendo (90% de amigos pessoais e familiares, que me conhecem, uns 10% que até confiam em mim) que infelizmente o abuso está mais perto do que vocês imaginam. Não é história de filme ou televisão, não é coisa que acontece só com a prima-do-amigo-do-namorado-da-vizinha-do-seu-pai. Está do seu lado, o tempo todo. 
Dito isso, apesar de saber que muitas mulheres precisam de orientação e desabafo sobre o tema, esclareço que meu texto tem endereço certo nos homens das nossas vidas. Por um simples motivo: eles não fazem a menor ideia que isso acontece sempre com a gente, em qualquer lugar, a qualquer hora. Meninos, está na hora de vocês terem ao menos uma noção do que passamos diariamente para, quem sabe, nos apoiarem na luta de acabar com isso. 
A primeira vez que fui seguida por um homem na rua eu tinha menos de 10 anos. Estava indo à padaria para minha mãe. A padaria ficava a alguns quarteirões de casa, coisa de 5 minutinhos andando e por ruas movimentadas. Eu passei por um carro e me olhei no espelho, vi que meu shorts estava torto e parei para arrumar. Foi então que notei um cara numa bicicleta na praça, do outro lado da rua, me olhando. Algo despertou meu alerta, achei estranho uma bicicleta parada ali, com o cara em cima como quem vai andar, me olhando. Então fiz que ia andar pra frente e fiquei olhando, ele também fez menção de sair. Parei novamente e olhei pra ele, ele também parou. Corri. Corri para a casa de conhecido mais próxima, era a tia Vilma, que vendia doces na garagem. Corri toquei a campainha e fiquei esperando tremendo. Ele sumiu, ainda bem. 
Já na fase de sair e ir pra matinê das danceterias (sim, era esse o nome na década de 80), um cara ficou tentando me encoxar no ônibus, eu me esquivava e um amigo percebeu e me colocou sentada, ficando todos os garotos da turma em volta, pro cara não ter acesso. Ele nem disfarçava, começou a pedir pros meninos me apresentar e ficava falando coisas horríveis. Desceu atrás da gente no ponto e os meninos novamente me ajudaram, me acompanhando e vigiando pra ver se ele estava atrás até conseguirmos despistá-lo. 
Com uns 15 anos eu estava no ponto de ônibus esperando quando um cara passou super devagar e me olhando. Em poucos minutos ele passou novamente do outro lado da avenida e parou o carro. Lembro da cara nojenta dele me olhando enquanto esperava para atravessar a rua e eu esperando um ônibus que estava vindo parar no ponto para cobrir a sua visão e ele não ver pra que direção eu correria. Deu certo, em segundos eu subi uma ladeira enorme e cheguei na casa de uma amiga. 
Nesta mesma época, um dia estava indo fazer trabalho na casa de uma amiga e um cara passou devagar com o carro. Ao chegar na esquina ele parou, como quem olha pra cruzar a rua, mas a rua estava deserta, ninguém cruzava e o cara não saía do lugar. Vi ele me olhando pelo retrovisor e parei na primeira casa, tocando a campainha. Ninguém veio atender, mas eu fingi que estava conversando com alguém e o cara foi embora.
Algum tempo depois, não lembro quanto, estávamos no metrô eu e minha irmã. Um velho nojento se aproximou dela que estava sentada e começou a mexer no pinto por cima da calça, na direção do ombro dela. Eu, em pé, ao lado do cara, falei bem alto "cuidado aí". Ele saiu e se sentou num banco próximo. Quando minha irmã se levantou para descer ele foi atrás dela. Eu sentada, porque só desceria na próxima estação, falei alto novamente "Está atrás de você". O cara voltou, sentou e ficou me encarando. Lógico que eu pensei "me ferrei, agora ele vem atrás de mim". Não deu outra, mas eu já saí correndo atropelando todo mundo e só parei quando já estava no outro trem. Ele ficou pra fora. 
Aos 17 eu estava saindo do Metrô Santana, subindo uma escadaria que dá pra Av. Cruzeiro do Sul, num domingo de manhã e senti uma mão no meio das minhas pernas. Eu quase caí da escada, minha irmã me segurou, o cara virou as costas e saiu andando. Só deu tempo de eu jogar a bolsa nas costas dele e gritar "filho-da-puta". Mas o pior foi ver um casal que estava na parte de baixo rir da situação e ver a expressão do cara de quem gostou do que viu. Isso dói até hoje. Eu não queria, eu não permiti, mas dois homens que nunca vi na vida sentiram prazer as minhas custas.
Um ano depois eu estava voltando para um instituto que frequentava com a minha família no Tatuapé, quando do nada um cara me tacou na parede e meteu a mão em mim. Depois de tantas eu já estava mais esperta e com tanta raiva acumulada que dei um soco no peito dele, jogando-o pra trás. Ele então ergueu a blusa e eu vi a arma: "Não grita não que eu estou armado". Corri. Ele não atirou nem veio atrás. Talvez porque um senhor viu e parou pra ficar olhando. O fato é que mais uma vez escapei de algo pior. 
Na faculdade, um cara me seguiu de carro quando voltava, ao meio dia. Ele ia costurando a rua que eu estava subindo de forma a tentar chegar na esquina no momento em que eu fosse atravessar. Conseguiu na terceira tentativa e parou de um jeito que eu teria que passar ou pela frente ou pelas costas do veículo, além de muito próxima a porta de passageiro. Fui calmamente como quem não percebeu e quando eu cheguei na porta do carro virei pra ele, joguei o material no chão,  bati o pé como quem intima pra briga e gritei "que que é? porra!" Acelerou e fugiu. 
Há alguns anos atrás, já no vilarejo, estava voltando pra casa e um cara mexeu com uma garota do outro lado da rua. Ela estava com uma cara apavorada. Eu atravessei e perguntei "algum problema?" E ela disfarçou "então, tá estranho". Ela estava indo numa direção oposta a minha, mas a acompanhei. Ela contou que o cara a estava seguindo desde a avenida e falando coisas horríveis. Fui até a esquina da sua casa, o cara sumiu.
Essas são as histórias mais marcantes. Sem contar as passadas de mão na bunda em balada e no ônibus, os inúmeros caras que levaram uma pastada no pinto por tentar encoxar no ônibus e no metrô...
Reparem que dificilmente vocês encontrarão semelhanças de fatores comumente atribuídos como motivo: diferentes idades, diferentes bairros, cidades e lugares, diferentes roupas e muitas vezes de calça jeans e camiseta, lugares movimentados, sozinha ou em grupo, na fase magra e na gorda e até com outras mulheres envolvidas. 
Tem algo de errado comigo? Não. Todas nós passamos por situações assim. Se ainda acham que é exagero, perguntem para suas mães, irmãs, namoradas, esposas, filhas, amantes, amigas, colegas de trabalho. Eu duvido que elas não tenham ao menos uma história pra contar. Mas não duvido que elas escondam, porque é horrível passar por isso, quanto mais deixar que outros homens saibam. Nunca se sabe o que o cara vai pensar e dizer. A agressão pode só aumentar. No entanto, todas as mulheres que conheço têm alguma história assim pra contar.
Um dia, um ex me disse que eu era encanada demais com isso, que sempre achava que iam me fazer mal. Estávamos na casa dele e eu respondi "ah é, então pergunta pra sua mãe e pra sua irmã se elas já passaram por isso". Ele respondeu "lógico que não, se não eu matava o cara, elas nunca me contaram nada". Eu olhei pra elas e elas só riram. Ele ficou desesperado querendo saber quando, como, o que foi. E elas só disseram que direto acontece e só ele que não sabe. 
Portanto, queridos, saibam. Acontece. Com todas nós, todos os dias, em qualquer lugar, em qualquer situação. Por isso, não nos acusem e não nos agridam mais. Vocês precisam entender que já é hora de vocês mudarem isso entre vocês. Vocês precisam entender que nós somos as vítimas. Vocês precisam se posicionar e largar a comodidade do "perto de mim não acontece". Vocês precisam ficar do nosso lado. 

17.3.13

Mais livros, por favor


Sou apaixonada por livros. Não é só que gosto de ler, é também um fetiche, talvez um vício. Acho livro uma coisa linda, sedutora. Não importa muito o estilo, a história, o autor, o livro é como um objeto imantado que me atrai. Não consigo ver um e não passar a mão na capa. Em consequência, tenho muitos livros em casa. Eu acho que são pouquíssimos, minha mãe tem o dobro na estante do seu quarto. Mas o povo que vem aqui em casa diz que é muito. 
Lembro do primeiro livro que ganhei na vida. Foram dois de uma vez na verdade. Foi na segunda série, na comemoração que escola fazia para o dia do livro (ou era da leitura...) e premiava um aluno de cada série como o "leitor do ano". Ganhei sem nem entender porque (os professores que escolhiam), só sei que amei ganhar e segurar na mão os dois livros. Um era "Memórias de Emília" do Monteiro Lobato que ficou ofuscado pelo segundo, "As sete cidades do arco-íris" de Teresa Noronha. Eu fiquei curiosa pela capa do livro e não desgrudei dele até terminar. Depois que terminei também não desgrudei e só fui ler o outro livro anos depois. Engraçado que tenho o Memórias até hoje, mas não faço a menor ideia de onde foi parar meu exemplar das Sete Cidades. Como eu queria tê-lo na minha estante!
O próximo livro que marcou o crescimento desta paixão foi um clássico que tinha a palavra "crime" no título e não, não é "Crime e Castigo" e nem "O Crime do Padre Amaro". É uma história estranha. A professora de português nos levou para uma aula na sala de leitura e disse "podem escolher o livro que quiserem". Eu fui atraída por uma prateleira com uma coleção em capa dura, azul, escritos em prata. Tinha ali todos os clássicos da literatura mundial que você pode imaginar. Peguei este que era "crime alguma coisa" e sentei num cantinho pra ler. Lembro da professora chegar e me perguntar "Vai ler este mesmo?" e eu, que já estava lendo e super empolgada com a história logo na primeira página respondi "sim, é legal!". Nunca mais voltamos à sala de leitura e eu não consegui terminar o livro, nem me lembrar o nome ou o autor. Depois de muito procurar cheguei a conclusão que era "Crime e Castigo" e minha memória estava me pregando uma peça, então fui lê-lo e no segundo parágrafo tive certeza: não era. Ainda procuro este livro como louca, parece que foi um sonho e ele nunca existiu. Em todo caso, vai que vocês conheçam e me ajudem: o livro começa descrevendo a cena de um crime, a imagem que guardo é uma estrada de terra e a faca ensanguentada na mão do cara. A linguagem é bem rebuscada, culta. E é só isso que eu lembro. 
Então, já no magistério, me deparei com "A Dama das Camélias" (Alexandre Dumas Filho) e descobri que amava literatura. Ninguém que eu conhecia, da minha idade, gostava de literatura. Era preciso falar disso baixinho e reclamar dos livros obrigatórios de vestibular para não ser execrada, mas eu amava literatura e minha única reclamação é que queria ler vários sem ter que me preocupar com o vestibular. 
Graças a esta paixão, me tornei uma leitora compulsiva. Antes eu lia um livro por vez e tentava acelerar cada vez mais o ritmo para ler mais e mais livros. Existem muitos livros no mundo e, no fundo, eu queria era conseguir ler todos antes de morrer. Como o tempo é curto, me inspirei em Picasso que tinha uma tela em cada cômodo da casa e ia pintando todas ao mesmo tempo conforme passava por elas, e espalhei livros pela casa. Nesta fase estou lendo quatro livros: "O Cemitério de Praga" (Umberto Eco) no quarto, "As Aventuras do Sr. Pickwick" (Charles Dickens) no banheiro, "Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado" (Ana Beatriz Barbosa Silva) na sala e "Contos Completos" (Virgínia Wolf) no escritório. 
Com este último, aliás, desenvolvi uma relação de amor e ódio. Virgínia é extremamente densa e reflexiva, seus contos nunca passam em branco, sem te forçar a pensar em algo sobre a vida, a morte, a felicidade, o sentido das coisas. Então eu passo fases grudada neste livro, devorando-o, e outras em que não consigo nem olhar pra ele, cansada de pensar.
Sou uma amante a moda antiga e não substituirei os livros por e-books e similares. Gosto de sentir a textura da capa, o cheiro do papel, de ouvir o barulho da folha virando. Gosto de grifar as partes que me chamam atenção, de anotar o significado de palavras novas ao lado, de voltar em outros momentos para ler o que grifei e lembrar de mim naquele momento. 
Por tudo isso, não consigo entender alguém que diz "não gosto de ler". Eu entendo não gostar de filmes, de TV, de internet, de novela, de revistas, de jornal, de arte, de estudar. Mas não entendo alguém não gostar de ler. É decepcionante. Não gostar de ler é não gostar de imaginar, de pensar, de refletir, de sonhar. E eu não entendo como alguém pode não gostar destas coisas que nos fazem humanos. 

19.1.13

Carros não voam


Sonha em ver o futuro. Não o amanhã ou o ano que vem. Mas o futuro mais longe possível, aquele que ninguém imagina que verá.
Olha para os números e rabisca as datas futuras - 21/03/2079, 14/12/2083... Será que ainda se escreveriam deste jeito? Era possível que até lá acontecesse alguma grande revolução que alterasse a forma como registramos o tempo? Os judeus, os chineses e outros povos mais antigos, provavelmente nunca imaginaram que um dia houvesse outro calendário, que marcasse o tempo a partir de um acontecimento específico. Aliás, outro acontecimento específico que não o deles, por que em verdade não sabemos a data correta desde que o homem surgiu na Terra. Acredita que este seria o certo, pois assim teria a chance de escrever números, datas, que provavelmente nunca verá.
Não a intrigam as grandes revoluções tecnológicas. Sabia que seriam muitas, estava claro. O que despertava sua curiosidade era o cotidiano. A empresa onde trabalha ainda existiria? Seria maior e mais poderosa? E a sua função, ainda existiria dentro da empresa? Haveria em seu lugar um outra telefonista que entre uma ligação e outra teria tempo para pensar nestas coisas? Ela também ficaria rabiscando datas aleatórias enquanto a pessoa esbraveja do outro lado da linha?
Imagina que é por isso que as pessoas acreditam em vida após a morte, com ou sem reencarnação. No fundo ninguém quer morrer, todos querem escrever mais uma data no papel, querem ver mais um dia e saber como é que o mundo vai ser.
E tem que ser assim mesmo, porque quando não é, as pessoas desistem. Suicidam-se. Ela nunca pensaria em suicídio. Não porque tivesse a melhor vida do mundo ou não souvbesse o que é tristeza. Apenas porque queria ver como ia estar o mundo amanhã, e depois de amanhã, e depois, e depois...
Mas ela não é delirante, acredita. Porque quando imagina os anos futuros, não fica delirando com teletransporte ou sexo por capacete. Acha mais interessante saber que música as pessoas vão ouvir do que através de qual tecnologia o farão. Isso ela aprendeu desde criança, quando delirava com o fim do mundo no ano 2000, ou com carros voadores e cachorros-robôs em 2013...
2013. Ainda usamos telefones e a internet continua uma bosta. Não dá pra negar que as coisas vão mudar, mas de forma muito mais lenta do que os nerds deliram. E o cliente na linha grita mais desesperadamente só pra fazê-la acordar, atestando esse seu último pensamento. 

12.1.13

Tsunami


"Não há futuro. Não há vida. Não há nada. Apenas o fascismo dos homens, preocupados exclusivamente com o próprio prazer. Ah, se eles olhassem além das cabeças de seus paus..."

"Talvez goste tanto da noite por isso: a penumbra esconde os defeitos das criaturas. Todos permanecem iguais, borrados pela pouca luz."

"Existir é esperar. Aguardar o momento do desfecho."

"Compreender é para os fracos. Melhor só sentir."

"Mas nos tempos de violência e desamor, melhor passar o dia de pijama, fazendo palavras cruzadas, do que enfrentar o bando de sanguessugas do lado de fora."

"Mentira tem cheiro. Mentira tem cor. Mentira tem gosto."

(Retiradas de vários contos - Lara Pezzolo Fidelis)


9.1.13

Visões


Ele olhou para ela mais uma vez:
" - Eu quero que saiba
que não deixei de pensar em você
um único dia sequer
desde que fui embora".
E ela, contendo a vontade de xingá-lo:
" - Isso não muda um único dia sequer,
desde que você foi embora".