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24.6.11

Porque elas ainda vão mudar o mundo


Virei tia aos 15 anos. Era como um sonho de menina. Eu olhava aquela coisinha branca de olhos azuis brilhando pra mim e só pensava em fazê-la rir até soluçar. Minha segunda sobrinha nasceu eu já estava na faculdade. Achei que nem me emocionaria tanto, pois já conhecia a emoção e a paixão que é ter sobrinhas. Mas quando entrei no quarto e a vi chorando no colo da minha irmã foi instântaneo: meus olhos se encheram de lágrimas, meu coração disparou e eu só sentia amor.
Hoje elas estão com 18 e 10 anos. Uma loirinha revoltada (já raspou e pintou de vermelho o cabelo, cheia de piercings e alargador) e uma mestiça delicada e fashion. Lindas e super carinhosas. Desde que nasceram eu me esforcei pra ser uma super tia. Dizia a mim mesma que não seria pra elas o que 90% das minhas tias e tios foi para mim.
Propositalmente criei coisas que fossem só nossas. Com a Tata (Tainá, a mais velha), virou lei irmos juntas nas estréias do Harry Potter, até ela me trocar pelos amigos, o que considero extremamente saudável. Passamos a rever os filmes juntas em dvd, com pipoca e brigadeiro de colher. Lemos todos os livros e ainda os discutimos, comparando com os filmes.
Com a Bibi (Gabriela, a minha japonesinha) criamos momentos do dia a dia, adoramos arrumar uma super mesa de lanche da tarde para surpreender minha irmã quando vem buscá-la na minha casa. Ela sempre faz um desenho para deixar em algum lugar da casa e poder me lembrar dela todos os dias. Depois que decidiu ser estilista, passou a fazer vestidos para mim.
Há também as falas que se tornaram só nossas. Com a primeira, desde que ela aprendeu a falar, brigamos por quem é que ama mais a outra. Até hoje, num simples e-mail, o final é sempre "eu que te amo". A segunda é muito engraçada e sempre detona minhas frases, como quando nos falamos ao telefone, me anuncio "É a tia mais legal do mundo!" e ela ri "Isso é você quem está falando..." ou me despeço "Eu já disse que te amo?" e ela ri denovo "Todo dia!".
Sempre que vão fazer compras chamam a Tia Mica. Desenvolvi uma fama de conseguir achar as coisas que elas gostam, do jeito que sonham e num preço pagável. Essa fama contagiou a família, mãe e irmãs também me chamam para ajudar nas compras. Conclusão: vivo no shopping!
A Tata é de gêmeos, meu ascendente. A Gabi é de virgem, meu signo. Com as duas tenho muitas afinidades e não consigo passar mais de dois dias sem conversar. Telefone, e-mail, msn, facebook, twitter, o que for! Temos que nos falar e temos que nos ver. Dificilmente passa uma semana sem que não nos encontremos. E quando acontece, dá uma saudade doída.
Eu sabia, aos 15 anos, que ser tia era uma coisa legal. Eu só não imaginava que era perfeito! Eu sabia que ia curtir. Só não imaginava que ia me encontrar e me reconhecer tanto nelas.
Minhas sobrinhas são minha inspiração. Já vejo nelas que a suas gerações são de mulheres e pessoas bem diferentes que a minha. Isso me conforta. Uma vez disse para elas "o meu sonho é que vocês me superem, que me provem que eu estou errada, que achem soluções, idéias e princípios melhores" Não tenho medo de olhar o mundo e perceber que não o domino mais como só os adolescentes são capazes. Seria triste demais se tudo continuasse igual. Essa renovação traz esperança de que realmente haverá um mundo melhor, já que eu não o mudei quando tentei.

19.6.11

nosso velho lugar

existe um velho lugar
de ondas bravas e sol brilhante
que visito de tempos em tempos
para lembrar de você

cada pedra continua em seu lugar
e meu coração dispara
oras de desespero, oras de alívio
olhando o sol e o mar

quando visito esse nosso velho lugar
posso ainda te ouvir confuso
dizendo amores e ódios ao meu ouvido
enquanto eu apenos olho você

achei que o tempo destruiria esse lugar
transformaria-o numa cabana velha
daquelas esquecidas, abandonadas
onde eu só sentiria o medo de reencontrar você


mas ele continua lá - intacto, brilhante
e eu continuo me sentando na areia
enquanto você anda de um lado para o outro
sem me enxergar.

15.6.11

Eu, Micaela H., 33 anos, ultrapassada


Estava lendo a minha querida revista TPM e essa verdade me bateu na cara: estou ultrapassada. Tudo porque na seção "Bazar" da edição de maio há um editorial sobre os super contemporâneos, pra mim vanguardistas, coletores menstruais. Trata-se de um copinho estranho que lembra um funil, feito de silicone cirúrgico, que é colocado para receber o fluxo menstrual podendo ficar até 8h dentro de você. E como uma usuária comenta, é só tirar, lavar e reutilizar... Senti uma mistura de dúvida, nojo, curiosidade e rejeição imediatas. Um copinho... um copinho dentro de mim o dia todo... aí vou ao banheiro, pego o copinho cheio, esvazio e lavo... lavo o copinho nojento... fica limpinho... coloco denovo... Estranho, muito estranho. Mas não é só isso, ainda há o apelo "ecofriendly"! Sim porque os copinhos são reutilizáveis por até 5 ou 10 anos!!! Nada de absorventes que levam cerca de 100 anos para sumirem do planeta. Eu me achava tão moderna por usar absorvente interno desde a adolescência sem medo de perder o hímem... Mas minhas sobrinhas vão usar copinhos. Senti-me a senhorinha que não quer usar o multiprocessador porque dá muito trabalho pra montar e lavar. Ainda bem que é caro, posso usar isso como desculpa pra ficar sem experimentar a nova super invenção ecológica, higiênica e fêmea resolvida do momento.

10.6.11

Cena de fim de um amor

Já era tarde quando Lúcia olhou pra ele e pensou "porque é mesmo que ele está aqui?" Dias e noites ao lado de um amor e de repente nada fazia sentido. Ficou olhando pra ele dormindo, era lindo. Decididamente ele era um homem lindo. Mas Lúcia só conseguia desejar sair correndo.
Esperou o sol nascer calmamente, olhando o surgir no alto, brilhando no mar. Era como se o sol a chamasse. Vestiu a regata branca que ele tanto adora, pegou a mochila e saiu. Na sala, deixou o Ben Harper chorando: era o único jeito de ir embora parecendo que tinha algum motivo.
Lúcia sabia que dentro de uma ou duas semanas ele ligaria. Só não sabia o que iria dizer. Se não fosse covardia, ela nem atenderia o telefone. Mas era cruel demais ignorá-lo. Lembrou de todas as vezes que ligou pra alguém, não seria ruím com ele assim.
Em duas semanas o telefone não tocou. Era melhor assim. Ele tinha entendido, ficaria tudo bem.
O melhor era retomar a estrada, Lúcia já estava naquela cidade há muito tempo. Foi na rodoviária, olhando suas possibilidades, que Lúcia ouviu a voz de Carlos. Ela se virou e estranhou perceber que o seu coração disparava. Ele sorriu e veio em sua direção: "Ainda por aqui? Pensei que já estivesse longe desde aquela manhã!"
- É, fiquei aproveitando o mar... E aí? Tudo bem?
Tudo sim! Acabo de chegar de viagem! Achei que andar por aí podia ser uma boa pra te esquecer - e ele sorriu tão sinceramente que fez Lúcia tremer e sentir o estômago se contorcer.
- Ah! E foi? Teve sucesso?
- Ah eu nunca vou te esquecer Lúcia, foi ótimo! Segui sua receita e graças a vocÊ conheci a mulher da minha vida, ela chega na semana que vem, vamos morar juntos.
O cérebro de Lúcia trabalhou em segundos: nunca vai me esquecer, me amava, mas em um mÊs encontrou a mulher da vida e vai morar com ela? COMO ASSIM?? Como isso era possível? Lúcia sentiu que suas pernas tremiam e ela poderia cair a qualquer momento. Mas sorria. Apenas sorria.
A atendente do caixa cortou a cena "próximo!" Lúcia se virou, andou até o guichê pensando no que diria. Olhou pra moça com vontade de chorar e se imaginou dizendo "ele vai casar com a mulher da vida dele e não me ligou, nem uma vez sequer" Mas apenas pediu "Belo Horizonte, por favor" e ficou pensando porque tinha escolhido BH. De qualquer forma, Lúcia nunca fez um plano de viagem mesmo, só queria ir de uma cidade a outra cada vez que um amor acabava.

8.6.11

Casa nova, Mafia Wars e paixão


Eu sou apaixonada pelo que escolho fazer. Não importa o que seja, mas me apaixono loucamente. Quando fui vegetariana, ao 14 anos, não podia ser só de carne, fui ao extremo e abandonei qualquer coisa que pudesse ter passado perto de um bichinho: até gelatina porque dizem ter tutano. Até hoje não sei se gelatina tem tutano, mas eu amava ser vegan, mesmo que cegamente.
Houve minha fase professora. Cheguei a ir trabalhar, por 6 meses, em período integral e só recebendo meio período. Mas era importante pra escola e pro meu currículo. Hoje eu não consigo nem me imaginar numa sala de aula, acho que teria meu melhor momento estátua.
Então eu fui fazer artesanato. E ficava a madrugada inteira, fins de semana inteiros, lixando e pintando. Ainda adoro isso, mas há anos não mexo nos guardados e crio alguma coisa.
Teve ainda a fase Lost. Eu baixava a temporada inteira e só saía da cama para pegar alguma coisa pra comer, na frente do note, claro. 10 episódios num dia. Quando a série chegou no final minha conclusão foi: Fui enganada. Se era pra mandar todo mundo pra luz, era só chamar a Melinda Gordon na primeira temporada que ela resolvia em um episódio. Triste. Nunca mais falei de Lost.
Cada época teve sua paixão, com propensão ao vício, estafante, que consumo até a exaustão e depois simplesmente pego implicância e nunca mais penso.
Foi assim que me enfiei no Mafia Wars. Momento sem grana e sem nada para fazer, joguei uns joguinhos do Facebook e depois de uns dias já dormia e acordava pensando na hora de jogar. Aí enjoei... ia parar, mas todo mundo me dizia para entrar num clã. Entrei no MBR e ah que paixão! Agora além de jogar eu conhecia pessoas, lutava contra outros clãs, era o máximo! Enjoei, me preparei pra abandonar tudo e fui convidada para ser administradora do clã. Eu não consigo largar o Máfia e o MBR.
Isso foi longe, as pessoas saíram de traz da tela e hoje têm nome, rosto, cheiro e cor. Elas entraram pra minha vida e era disso que eu mais precisava: pessoas.
Então eu mudei, novamente, de casa. Minha quinta casa no vilarejo, décima na vida. Até agora, a melhor de todas. Mas isso me deixou off por 20 dias. Vinte longos dias longe do Máfia, do MBR, das pessoas.
Achei que isso seria o fim do jogo na minha vida. Achei que assim eu conseguiria esquecer esta paixão e ver que vivo sem ela. Ledo engano! Essa paixão é séria... é daquelas que só acaba devastando a vida e corpo. Porque eu sinto falta do meu joguinho todos os dias. Um buraco enorme no peito.
Quando o vício chega neste ponto, só tem um jeito: lidar com ele. Mafia é igual cigarro, você começa sabendo que um dia vai parar, mas por enquanto tá bom assim. Um dia eu vou abandonar o Máfia, mas ainda não tenho outra paixão para substituí-lo. É a minha novela, o meu jogo de futebol. Só mais uma paixão.