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28.3.13

Carta aberta aos homens


Há algum tempo estou preparando este texto. O assunto é tão difícil e delicado que nunca acho que está suficientemente claro e bem argumentado. Muito provavelmente por dois motivos: falar de abusos sexuais que sofremos mexe com sentimentos muito profundos há tempos colocados em um lugar seguro e, por saber das possíveis reações que surgirão, já que sempre surgem. 
No entanto, expor a minha história em relação a isso é uma forma de dizer pra vocês que estão lendo (90% de amigos pessoais e familiares, que me conhecem, uns 10% que até confiam em mim) que infelizmente o abuso está mais perto do que vocês imaginam. Não é história de filme ou televisão, não é coisa que acontece só com a prima-do-amigo-do-namorado-da-vizinha-do-seu-pai. Está do seu lado, o tempo todo. 
Dito isso, apesar de saber que muitas mulheres precisam de orientação e desabafo sobre o tema, esclareço que meu texto tem endereço certo nos homens das nossas vidas. Por um simples motivo: eles não fazem a menor ideia que isso acontece sempre com a gente, em qualquer lugar, a qualquer hora. Meninos, está na hora de vocês terem ao menos uma noção do que passamos diariamente para, quem sabe, nos apoiarem na luta de acabar com isso. 
A primeira vez que fui seguida por um homem na rua eu tinha menos de 10 anos. Estava indo à padaria para minha mãe. A padaria ficava a alguns quarteirões de casa, coisa de 5 minutinhos andando e por ruas movimentadas. Eu passei por um carro e me olhei no espelho, vi que meu shorts estava torto e parei para arrumar. Foi então que notei um cara numa bicicleta na praça, do outro lado da rua, me olhando. Algo despertou meu alerta, achei estranho uma bicicleta parada ali, com o cara em cima como quem vai andar, me olhando. Então fiz que ia andar pra frente e fiquei olhando, ele também fez menção de sair. Parei novamente e olhei pra ele, ele também parou. Corri. Corri para a casa de conhecido mais próxima, era a tia Vilma, que vendia doces na garagem. Corri toquei a campainha e fiquei esperando tremendo. Ele sumiu, ainda bem. 
Já na fase de sair e ir pra matinê das danceterias (sim, era esse o nome na década de 80), um cara ficou tentando me encoxar no ônibus, eu me esquivava e um amigo percebeu e me colocou sentada, ficando todos os garotos da turma em volta, pro cara não ter acesso. Ele nem disfarçava, começou a pedir pros meninos me apresentar e ficava falando coisas horríveis. Desceu atrás da gente no ponto e os meninos novamente me ajudaram, me acompanhando e vigiando pra ver se ele estava atrás até conseguirmos despistá-lo. 
Com uns 15 anos eu estava no ponto de ônibus esperando quando um cara passou super devagar e me olhando. Em poucos minutos ele passou novamente do outro lado da avenida e parou o carro. Lembro da cara nojenta dele me olhando enquanto esperava para atravessar a rua e eu esperando um ônibus que estava vindo parar no ponto para cobrir a sua visão e ele não ver pra que direção eu correria. Deu certo, em segundos eu subi uma ladeira enorme e cheguei na casa de uma amiga. 
Nesta mesma época, um dia estava indo fazer trabalho na casa de uma amiga e um cara passou devagar com o carro. Ao chegar na esquina ele parou, como quem olha pra cruzar a rua, mas a rua estava deserta, ninguém cruzava e o cara não saía do lugar. Vi ele me olhando pelo retrovisor e parei na primeira casa, tocando a campainha. Ninguém veio atender, mas eu fingi que estava conversando com alguém e o cara foi embora.
Algum tempo depois, não lembro quanto, estávamos no metrô eu e minha irmã. Um velho nojento se aproximou dela que estava sentada e começou a mexer no pinto por cima da calça, na direção do ombro dela. Eu, em pé, ao lado do cara, falei bem alto "cuidado aí". Ele saiu e se sentou num banco próximo. Quando minha irmã se levantou para descer ele foi atrás dela. Eu sentada, porque só desceria na próxima estação, falei alto novamente "Está atrás de você". O cara voltou, sentou e ficou me encarando. Lógico que eu pensei "me ferrei, agora ele vem atrás de mim". Não deu outra, mas eu já saí correndo atropelando todo mundo e só parei quando já estava no outro trem. Ele ficou pra fora. 
Aos 17 eu estava saindo do Metrô Santana, subindo uma escadaria que dá pra Av. Cruzeiro do Sul, num domingo de manhã e senti uma mão no meio das minhas pernas. Eu quase caí da escada, minha irmã me segurou, o cara virou as costas e saiu andando. Só deu tempo de eu jogar a bolsa nas costas dele e gritar "filho-da-puta". Mas o pior foi ver um casal que estava na parte de baixo rir da situação e ver a expressão do cara de quem gostou do que viu. Isso dói até hoje. Eu não queria, eu não permiti, mas dois homens que nunca vi na vida sentiram prazer as minhas custas.
Um ano depois eu estava voltando para um instituto que frequentava com a minha família no Tatuapé, quando do nada um cara me tacou na parede e meteu a mão em mim. Depois de tantas eu já estava mais esperta e com tanta raiva acumulada que dei um soco no peito dele, jogando-o pra trás. Ele então ergueu a blusa e eu vi a arma: "Não grita não que eu estou armado". Corri. Ele não atirou nem veio atrás. Talvez porque um senhor viu e parou pra ficar olhando. O fato é que mais uma vez escapei de algo pior. 
Na faculdade, um cara me seguiu de carro quando voltava, ao meio dia. Ele ia costurando a rua que eu estava subindo de forma a tentar chegar na esquina no momento em que eu fosse atravessar. Conseguiu na terceira tentativa e parou de um jeito que eu teria que passar ou pela frente ou pelas costas do veículo, além de muito próxima a porta de passageiro. Fui calmamente como quem não percebeu e quando eu cheguei na porta do carro virei pra ele, joguei o material no chão,  bati o pé como quem intima pra briga e gritei "que que é? porra!" Acelerou e fugiu. 
Há alguns anos atrás, já no vilarejo, estava voltando pra casa e um cara mexeu com uma garota do outro lado da rua. Ela estava com uma cara apavorada. Eu atravessei e perguntei "algum problema?" E ela disfarçou "então, tá estranho". Ela estava indo numa direção oposta a minha, mas a acompanhei. Ela contou que o cara a estava seguindo desde a avenida e falando coisas horríveis. Fui até a esquina da sua casa, o cara sumiu.
Essas são as histórias mais marcantes. Sem contar as passadas de mão na bunda em balada e no ônibus, os inúmeros caras que levaram uma pastada no pinto por tentar encoxar no ônibus e no metrô...
Reparem que dificilmente vocês encontrarão semelhanças de fatores comumente atribuídos como motivo: diferentes idades, diferentes bairros, cidades e lugares, diferentes roupas e muitas vezes de calça jeans e camiseta, lugares movimentados, sozinha ou em grupo, na fase magra e na gorda e até com outras mulheres envolvidas. 
Tem algo de errado comigo? Não. Todas nós passamos por situações assim. Se ainda acham que é exagero, perguntem para suas mães, irmãs, namoradas, esposas, filhas, amantes, amigas, colegas de trabalho. Eu duvido que elas não tenham ao menos uma história pra contar. Mas não duvido que elas escondam, porque é horrível passar por isso, quanto mais deixar que outros homens saibam. Nunca se sabe o que o cara vai pensar e dizer. A agressão pode só aumentar. No entanto, todas as mulheres que conheço têm alguma história assim pra contar.
Um dia, um ex me disse que eu era encanada demais com isso, que sempre achava que iam me fazer mal. Estávamos na casa dele e eu respondi "ah é, então pergunta pra sua mãe e pra sua irmã se elas já passaram por isso". Ele respondeu "lógico que não, se não eu matava o cara, elas nunca me contaram nada". Eu olhei pra elas e elas só riram. Ele ficou desesperado querendo saber quando, como, o que foi. E elas só disseram que direto acontece e só ele que não sabe. 
Portanto, queridos, saibam. Acontece. Com todas nós, todos os dias, em qualquer lugar, em qualquer situação. Por isso, não nos acusem e não nos agridam mais. Vocês precisam entender que já é hora de vocês mudarem isso entre vocês. Vocês precisam entender que nós somos as vítimas. Vocês precisam se posicionar e largar a comodidade do "perto de mim não acontece". Vocês precisam ficar do nosso lado. 

30.1.12

O diferente


Acabo de ver esta foto publicada no Facebook pelo Obvius, site que aliás recomendo muito. De cara já achei linda e perdi alguns minutos olhando as expressões das meninas que observam a criança loira. Foi então que resolvi elogiar nos comentários e tive o desprazer de ler os que ali já estavam. 
O primeiro deles era "o raro na zona! lol" e apesar da avalanche de pensamentos que tive, me policiei e disse "ah tá, ela deve estar tirando... meio infeliz, mas é só uma brincadeira". 
Logo abaixo veio a melhor pérola "Jesus falando aos seus discípulos... lindo!" Como assim!? COMO ASSIM?  
A foto é de uma beleza incomparável e leva à várias reflexões. Há meninas com olhar e linguaguem corporal indicando curiosidade sobre aquela criança diferente delas. Há outras com um riso assustado. Há muitas rindo e até uma gargalhando, segurando a boca. Milhares de pensamentos podem ter surgido em suas mentes e podemos até tentar imaginar alguns. Se fossem crianças ocidentais, eu diria que a de vestido amarelo pensou "Nossa que coisa mais esquisita!". Já a de vestido quadriculado vermelho, abaixada em frente a criança, tem cara de quem observa para ver se é verdade. E a de vestido rosa com a mão na boca "Nossa que coisa mais branca!". Mas pelas vestimentas e traços elas me parecem indianas ou um grupo possivelmente hindu e eu só sei sobre eles o que os livros ocidentais dizem. Não me sinto suficientemente conhecedora da cultura para arriscar o que elas estão pensando. 
No entanto, arrisco com quase absoluta certeza de que o olhar sobre o diferente causa o preconceito. E tenho dois exemplos para me apoiar. Primeiro a foto. Quantas vezes já vivemos a situação parecida em nossa sociedade, só que tendo crianças brancas olhando negras ou orientais desta mesma forma? E quantas vezes depois disso, parte delas passou do riso às ofensas, enfatizando a diferença e assumindo o controle da relação, tornando-a uma relação de poder? 
Segundo, os comentários. Como foi possível enxergar na criança loira o símbolo máximo da cultura cristã? E porque ela pode ser a representação desta divindade e as outras não? 
Tudo depende da cor das lentes que colocamos em nossos olhos, para enxergarmos o que quisermos nesta cena e no outro. Eu, prefiro queimar a retina e olhar sem proteção nenhuma. 

19.1.12

Sobre lutas, negação e desistência


Ainda pensando sobre a tempestade de manifestações que caem aos nossos olhos desde o advento das redes sociais, vi meus contatos divididos entre dois tipos: aqueles que defendem a causa dos animais x aqueles que criticam quem defende esta causa. O que é no mínimo curioso. 
Quem defende a causa vocês sabem o que faz: posta fotos, segue as ongs e associações de protetores, divulga links com informações sobre o caso do momento, pede assinaturas e procura, deste jeitinho, se engajar e espalhar a ideia entre os seus contatos. 
Quem critica, basicamente, usa duas frases “o país pára por um animal, mas não para combater a pedofilia” ou “ou país pára por um animal, mas não para combater a corrupção”. Há outras versões mais elaboradas ou mais toscas. Mas todas contém a inconformidade com o número de pessoas que é capaz de se mobilizar por um cachorro e não é capaz de se mobilizar por causas consideradas maiores. 
O que me intrigou foram os porquês. Porque uma pessoa é capaz de se mobilizar contra os maus tratos aos animais, mas não contra tantos outros problemas sociais e, principalmente, pelas questões políticas do nosso país que podem inclusive trazer avanços a sua causa primeira? Porque as pessoas que enxergam isso, criticam os protetores e seus adeptos tão ferozmente como se eles estivessem tornando a sociedade pior por defenderem uma causa diferente da deles? E porque, esses grupos são necessariamente antagônicos e competitivos como se só um deles pudesse ser detentor da verdade?
A primeira coisa que enxergo nisso tudo é que usar as redes sociais para denunciar casos de maus tratos e defender os direitos dos bichinhos, deu certo. Reclamem o quanto quiserem reclamar, falem o que quiserem, mas deu certo. É só surgir um novo caso que ele rapidamente torna-se viral e sim, o Brasil conectado já está sabendo, gritando e pedindo providências. Inteligentemente, o pessoal mais organizado desta luta sacou que o melhor é usar isso e já passaram pra segunda etapa – cobrar uma mudança na legislação através do apoio popular. Eles têm o público cativo, é só usá-lo. Se tenho críticas a isso? Não, só elogios. Não sei se a estratégia foi conscientemente traçada, mas é básica e deu certo. Parabéns. Não demorará muito para que vejamos novas conquistas nesta área. 
Então poderíamos usar a mesma força para outras lutas? Sim, mas depende da luta. O movimento GLBTT já usa e também consegue vitórias. Outro caso que deu certo. Mas contra a pedofilia não daria. Não neste esquema. Há tempos atrás, descobriram um cara que estava postando vídeos dele abusando de um menino que não parecia ter mais de 7 anos. Começaram a divulgar o vídeo no twitter. Resultado? Milhões de pessoas tiveram acesso a um vídeo de abuso, incluindo os pedófilos de plantão. Foi preciso que os órgãos competentes e as organizações se pronunciarem pedindo que as pessoas parassem de divulgar o vídeo porque isso era estratégia de pedófilos para compartilhar material sem que pudessem ser rastreados.  A ação não identificou o agressor, expôs a vítima, aniquilou a investigação e ainda contribuiu com a rede de pedofilia... 
Vocês podem pensar: mas as pessoas não pensaram nisso? Agora, assim exposto, é lógico. Mas na hora que a coisa começou, a maioria não pensou. Pensou ao contrário que estavam expondo o agressor, que alguém ia identifica-lo e então ele seria preso. Pensamento ingênuo? Sim. Mas na internet qualquer um tem acesso, então não dá pra esperar que as pessoas tenham informação e capacidade suficiente de enxergar tudo que envolve a questão. Talvez seja por isso mesmo que as inúmeras ongs e associações de defesa dos direitos da criança, incluindo as que lutam especificamente contra a pedofilia, não incitam este tipo de campanha... Não é que não tem ninguém fazendo nada, é só que não sabemos tudo o que está sendo feito. A divulgação principal é – denunciem. É através das denúncias à estas entidades ou ao disque denúncia que eles podem atuar. É assim que podemos ajudar. 
No entanto, há um outro ponto importante nesta questão. Olhar um animal vítima de violência dói o coração e incita à reação – eu posso fazer algo por ele. Mas olhar para uma criança vítima de violência e abuso, mesmo provocando dor, raiva e desespero, incita à dúvida – o que eu posso fazer? Geralmente não se tem resposta... Podemos denunciar. Depois disso é com a justiça e com a rede de serviços que ela vai precisar para se reerguer. Um cachorrinho, a gente leva pra casa. Uma criança, alguém pode simplesmente levar pra casa? 
Aprofundando mais ainda esta análise, eu diria que ninguém quer realmente olhar para uma criança nesta situação. É tão cruel, tão desumano, que simplesmente não aguentamos. Sabemos que existe, sabemos que tem alguém trabalhando com isso e então pronto. Porque encarar essa dor é demais para a maioria das pessoas. Infelizmente eu já a encarei e sei o quanto é difícil essa luta, por isso entendo se uma pessoa me diz “eu não consigo lutar contra isso, por mais que eu queira”. 
Agora olhemos para a questão política, a corrupção e os absurdos diários que assistimos acontecer no nosso país. Dizer que não dá certo mobilizar pela internet seria uma burrice. O Egito e a Líbia estão aí para provar o contrário. Então eu vejo que a questão é mais particular, mais pertinente ao nosso pobre país. 
Mobilização política exige capacidade de entendimento do cenário político, econômico e social de um país. Esta capacidade exige conhecimento e discussão. Pronto já eliminamos mais da metade da nossa população. Entre os que restam, é possível identificar dois fatores que podem levar a este aparente descaso.
Primeiro a mania de olhar política como se fosse campeonato de futebol. Representantes e eleitores dos diversos partidos esbravejam diariamente suas posições e atacam as outras. Depois reajem aos resultados como torcedores de times adversários. Exemplo claro disso foram as últimas eleições presidenciais em que, ao final, com a vitória da atual presidenta, os partidos contrários e seus eleitores saíram proferindo ofensas a pessoa (lésbica, feia, gorda, etc) e não formularam uma única crítica ou análise política do contexto. Era comum, nesta época, ver as pessoas se degladiando, se xingando, mas dificilmente se encontrava um debate sério sobre a situação posta. 
Segundo, vem o cansaço. Sim, estamos cansados. Há décadas somos maltratados e enganados por nossos políticos. Chegamos num ponto em que não sabemos o que fazer. Desistimos. Simplesmente desistimos. Se eu brigar por um gatinho agredido, eu o vejo ali se recuperando e vivendo bem, trazendo alegria para alguém. Se eu brigar por mudanças políticas, eu passo anos em debates e ações sem fim e não vejo mudanças significativas. Os políticos ensinaram, nós aprendemos – farinha pouca, meu pirão primeiro. E assim vamos levando, xingando quando dá, salvando um gatinho quando dá, fechando os olhos para o que não suportamos olhar e dormindo tranquilos. 

Para denunciar:
Disque 100 - Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes. Discagem gratuita em todo o território nacional. 

Para se engajar: 
Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais – ABONG – possui um cadastro das ongs por área de interesse, é só buscar aquela que é a sua cara. 

16.1.12

Por um mundo livre de julgamentos


Há décadas dizemos que no Brasil todo mundo é juiz de futebol, ou técnico. Nos últimos anos, principalmente depois que as redes sociais caíram no gosto popular dos brasileiros, descobrimos que além de juízes e técnicos de futebol, temos milhares de juízes de direito, psicólogos, filósofos, sociólogos, padres e pastores de plantão. 
Agora todo mundo pode em poucas linhas exprimir sua opinião e julgamento sobre qualquer coisa que acontece. Isso é um avanço do ponto de vista da liberdade de expressão e da descentralização da informação e da produção cultural. 
No entanto, o que me entristece é o choque por ver um avanço tão importante sendo usado da pior forma possível. 
De um lado, a expressão clara do senso comum julgando a tudo e a todos, sem nenhum princípio de reflexão, mas com muitos preceitos que dizemos querer ver exterminados de nossa sociedade, como a intolerância e a falta de civilidade generalizada. 
De outro, a tristeza de ver que enfim todos podem ter acesso a este instrumento e o usam tão mal. Passamos décadas discutindo nos almoços de família, nas reuniões de amigos, nas mesas de bar, sobre os problemas do país e da nossa sociedade, e agora que essa discussão pode ter um alcance maior, nos limitamos a julgar o outro com os mesmos princípios dos séculos passados. 
São inúmeros os casos só nos últimos meses que podem aqui ser usados de exemplo: yorkshire, Lula e o câncer, Lobo (e outros tantos com animais), estudantes da USP, polêmica BBB. Em cada um desses quase todos os usuários correram gritar seus julgamentos. Julgamentos sim e é aí que mora o problema. 
Se há uma situação polêmica em andamento e você quer contribuir para sua solução, o que pode fazer? Dar sua opinião? Sim. Mas dar a opinião é uma coisa, julgar é outra. 
Vamos tratar do caso do Yorkshire. Dar opinião é dizer algo como “é preciso ficar de olho nesse caso, cobrar das autoridades uma medida, uma legislação pertinente, sou contra a agressão e maus tratos aos animias e está na cara que a maioria da população brasileira também é”. No entanto, o que mais ouvimos foi “monstra, assassina, tem que morrer, tem que ser torturada, tem que jogar ela na parede também até morrer”. Isso é julgamento e por mais que a indignação nos assole, não tem razão nenhuma em ser proferida e nem é capaz de trazer a efetiva de mudança desejada. Reparem que não estou defendendo a agressora, aliás nem proferi minha opinião sobre o assunto, apenas exemplifiquei duas posturas diferentes para pessoas que têm a mesma indignação e buscam a mesma mudança em nossa sociedade. 
O que me intriga é como podemos promover uma cultura de paz, uma vida civilizada, uma sociedade mais justa baseada no respeito, se a reação comum é o julgamento deliberado, descontextualizado, sem bases jurídicas ou sociais, totalmente pessoalizado e imbuído de agressividade? Como poderemos elevar nossas pretensões de uma vida social comum de paz, se baseamos nossos julgamentos em princípios de violência, agressão, sectarismo e discriminação?
Imagino que neste ponto, amigos queridos com que convivo nestas mesmas redes sociais, estejam pensando “ah mica eu falo isso mesmo, porque me dá muita raiva”  ou ainda “é isso mesmo, ela merece morrer mesmo”. Eu os entendo. Entendo a indignação e o desabafo. E justamente porque sou capaz de entender, escrevo este texto. Olhem para ele não só como uma crítica, mas também como uma dica, uma sugestão e, não menos como o meu desabafo. 
É uma dica, uma sugestão, de que precisam refletir sobre seus princípios e sobre a melhor forma de disseminá-los na sociedade, de incitar o debate e de, assim, conquistar seguidores à causa que defendem, para então, com muitos, conseguir promover a mudança. Eu, esclarecida e contrária a agressão contra animais (ainda usando esta causa como exemplo), não aderiria a nenhum movimento em que seus defensores pedissem a morte, a tortura e a agressão. Uma vida é uma vida. Animal ou humana. Eu não defendo a agressão ou eliminação de nenhuma delas. Nem do mais vil. Simplesmente porque não reconheço em ninguém e nem em nenhuma instituição o poder sobre a vida do outro. Por sorte, vivo num país que me garante este direito na sua carta magna. 
O meu desabafo vem de uma tristeza muito maior que sinto, pelo que enxergo nesses pronunciamentos. Ideias retrogradas disseminadas por cientistas há séculos atrás, que exprimem preconceitos extremamente combatidos pelos mesmos que hoje os gritam, sem saberem realmente o que estão falando. Deprime-me ler que, em qualquer situação de violência física, a culpada é a vítima. Deprime-me ler as pessoas rindo e fazendo piada da dor e da doença de outra pessoa só porque não aprova suas posições políticas ou escolhas pessoais. Deprime-me ler piadinhas machistas todos os dias nestas redes. Deprime-me mais ainda reclamar de tudo isso e ser tachada de chata, radical, politicamente correta e até ver minha sexualidade questionada, por ser capaz de olhar o mundo criticamente e não aceitá-lo como a família, a escola, a igreja e a mídia me dizem que ele deve ser. 
Para cada caso citado aqui eu tenho uma postura política e filosófica. Eu tenho argumentos, dados, teorias e legislação em que eu posso me apoiar para me expressar sobre cada um deles. Para cada caso eu tenho uma dor e uma decepção com o ser humano e com nossa sociedade. Mas escolhi atacar aqui o que considero o pior problema em todos eles: a mania que temos de julgar o outro, culpa-lo e condená-lo, acreditando que isso é suficiente para resolver o problema. A mania que temos de ignorar o fato de que uma sociedade mais justa e civilizada depende de mudanças, de que as mudanças só ocorrem com atitudes, de que atitudes são acompanhadas e influenciadas pelos discursos e de que tudo isso é fruto de reflexão e conhecimento. 

19.9.11

Sobre sexo, amor e uma boa sacanagem


em homenagem a Scarlett Johansson
O sexo me perseguiu neste fim de semana. Infelizemente não foi na sua melhor forma, essa mesmo que vocês pensaram quando leram a palavrinha. Mas nestes dois dias, me deparei com coisas sobre sexo que me fizeram sentir necessidade de gritar um pouquinho aqui... e não é de prazer. 
Começou no sábado com uma amiga que escreve comigo no Minha saia é mais justa, desabafando que fora agredida em decorrência de uns posts em que falamos sobre sexo no blog. Não sei o que aconteceu porque ela ficou tão mal que não conseguiu contar. Sei que foi pela net e veio de amigos. Ex-amigos. Ex-medíocres-amigos. 
Pensando no que poderíamos fazer para defendê-la, já que ir até o agressor e pendurá-lo pelado amarrado numa árvore com uma cam ligada em rede é crime e, não pode passar de um pensamento psicopata que devo reprimir, lembrei-me da entrevista que fizemos na sexta com a também amiga Priscila Valdes e que no final comentou sobre o blog Cem Homens e sobre a velha falta de propriedade do nosso corpo. Nesse blog, que aliás recomendo, a jornalista resolve falar de sexo, mas também de amor e de relações. Os moralistas e tarados de plantão só enxergam sexo e ela é constantemente agredida. Já foi até chamada pela imprensa nacional de segunda Bruna Surfistinha. A mina não é puta, ela é sim uma corajosa. 
Conversando com uma amiga, falamos horas sobre a liberdade de desejos e de amor e o quanto isso é delicado, o quanto ainda fere as pessoas e o quanto por isso tudo acabamos nos reprimindo. 
Todas essas coisas ficaram emboladas aqui no estômago. Eu sabia que se resolvesse escrever o discurso de gênero ia vir bombando e sairia quase um trabalho de mestrado. Mas eu queria conseguir falar sem tanta raiva, com a mesma propriedade e em linguagem simples, essa que sempre uso aqui. 
Então a Revista TPM me salvou mais uma vez. Na edição de agosto, que estava largada aqui em casa sem ler, há uma reportagem super bacana sobre o movimento "Make love not porn" criado por Cindy Gallop. Recomendo absurdamente a leitura e uma visita ao site. A verdade é que ler isso me iluminou.
Já estamos há 40 anos da revolução sexual e nossos queridos homens ainda não entenderam que gostamos de sexo, sentimos tesão e desejo, mas isso é do nosso jeito, não do deles. Sei que isso não rola só com homens, sei que isso é um paradigma que ainda permeia toda a sociedade. Mas vou sim me dirigir aos homens e foda-se a mania de defesa deles de dizer "ah mas tem muita mulher que..." 
A coisa é tão simples: somos iguais a vocês. Não há nada biologicamente que nos impeça de sentir tesão. Há socialmente e culturalmente. Por isso mesmo a sexualidade é uma construção. Cada um vai achando o que gosta e o que não gosta. Mas vocês precisam entender que o fato de uma mulher sentir tesão não a torna uma vagabunda que pode ser desprezada e maltratada pelo seu tesão. Jura mesmo que depois de dois mil e 11 anos vocês ainda só conseguem enxergar as mulheres como Marias ou Madalenas!? 
Sem contar que isso é uma burrice até do ponto de vista do sonho de ser uma pegador. Porque muitas vezes, sacamos que vamos ser consideradas assim e broxamos... muitas vezes estava quase no ponto de pegar e aí mostram quem são... tchau baby, você já era, próximo. 
O "Make love not porn" me encantou justamente pela idéia de que sexo também é amor. Lutamos tanto para dizer sexo é sexo, amor é amor, que esquecemos do sexo com amor e com respeito. Não, não é uma defesa do voltem a casar virgem! É só para lembrar que no sexo existem dois e os dois têm que curtir a coisa. É só para defender que os padrões da industria do sexo são pensados no tesão machista e mulheres não são atrizes pornôs que vão se deliciar com tudo o que fizerem.
Em qualquer relação há sempre o limite do outro. Há sempre o momento de ver se isso será bom para os dois. E, sinceramente, se todos os seus desejos são os de fazer igual os filmes pornôs sinto ter que trazê-lo a encarar duas verdades cruéis: existe muito mais no sexo do que um filme pornô consegue mostrar e isso só se descobre olhando para dentro, não para a tela. Ser produto é fácil, mas é pouco. A escolha meninos, é de vocês.  

31.7.10

Divulgação: Carta Aberta - Sobre o direito ao aborto no Brasil

Você também é a favor de que mulheres continuem morrendo depois de interromper clandestinamente uma gravidez indesejada no Brasil?

Você também é a favor de que milhares de mulheres, todos os anos, continuem conferindo à curetagem na rede pública de Saúde o triste título de procedimento mais realizado pelo SUS? (com 3,1 milhões de internações no período de 1995 a 2007)

Será que também é a favor dos fetos jogados por aí? Das agulhas de tricô causando hemorragias e infecções gravíssimas, das perigosas receitas caseiras e venenos que tantas mulheres ainda consomem?

Consegue também ser a favor da indústria que faz prosperar as clínicas de aborto clandestino, que enriquecem a custa da vergonha, do drama e, muitas vezes, da morte de mulheres? Ou defende mesmo é a tentativa de criminalizar as mulheres que passam por tudo isso e pela mais completa marginalização ao interromper uma gravidez?

As organizações da sociedade civil que se dedicam à defesa dessas mulheres e do seu direito de escolha, no Estado democrático e laico brasileiro, vêm a público, de forma conjunta, repudiar a forma como o poder constituído; seja ele no âmbito Executivo, Legislativo ou Judiciário; políticos de diferentes legendas em campanha eleitoral; setores das igrejas cristãs, católicas e evangélicas; e, finalmente, parte da chamada grande mídia, vêm tratando a questão do aborto no Brasil.

A despeito de todo o desenvolvimento econômico que o País alicerça, dos inegáveis avanços nas áreas sociais e também na educação, e dos esforços na direção do amadurecimento do debate em torno dos mais espinhosos temas relacionados à desigualdade de direitos e à defesa das minorias, o Brasil persiste em manter procedimentos torturantes quando o assunto é aborto.

Adiar votações inadiáveis como a que se refere à autorização do aborto em casos de anencefalia; não incluir nas pautas prioritárias de votação no Congresso propostas favoráveis à vida das e à saúde das mulheres que permanecem com tramitação parada; não estabelecer políticas públicas eficazes e capazes de evitar mortes, e, principalmente, omitir-se do debate franco, aberto e profundo sobre o assunto com a sociedade, são procedimentos que causam inquietude em pleno terceiro milênio em uma sociedade civil organizada que tenta caminha rumo à evolução e à maturidade.

Ao submeter a questão do aborto ao calendário eleitoral e permitir que líderes religiosos dêem o tom do debate sobre a legalidade do aborto, ou ainda, sobre políticas públicas que devam ser implementadas para preservar a saúde das mulheres, autoridades no poder (ou em disputa pelo poder) mais do que fogem da responsabilidade para a qual foram eleitas (ou tentar ser eleitas) pelo voto. Lavam as mãos diante da realidade do País, aferida em sucessivas pesquisas e retratada de maneira perversa, até mesmo em telenovela global em horário nobre. Jogam para debaixo do tapete a dramática estatística do aborto e todas as suas mazelas no País.

A pouco mais de dois meses das eleições gerais, por meio das quais serão escolhidos representantes de quase 200 milhões de brasileiros, temos duas mulheres, Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV), candidatas à sucessão presidencial. Elas concorrem ao cargo em igualdade de condições com um homem que é um ex-ministro da Saúde, José Serra (PSDB). Nenhum deles é considerado um candidato ou candidata de ideias retrógradas, de direita, ou atrasado. Todos os três representam siglas que, distantes do poder, atuaram ativamente na defesa dos direitos humanos, das minorias e das questões de gênero. Contudo, nenhum dos três ousa enfrentar o tema aborto quando confrontado, diante de um microfone ou gravador, sem tentar sair pela tangente ou negar seu próprio passado favorável ao atendimento humanitário e digno das mulheres que precisaram recorrer a um aborto.

Diante disso, e dos muitos estudos que referem a ilegalidade do aborto no Brasil como sendo uma forma ineficaz de diminuir suas dramáticas estatísticas, além de punir e tornar mais vulneráveis milhões de brasileiras, a sociedade brasileira exige seguir em frente na construção do debate e de uma plataforma de ações que realmente modifique a situação do direito ao aborto e dos direitos reprodutivos no Brasil.

Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro
Católicas pelo Direito de Decidir
CFemea
Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR)
Grupo Curumim

Ipas
Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Sexuais Reprodutivos União de Mulheres Brasileiras

Quem somos: Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro é uma articulação de organizações composta por grupos e redes em nível nacional e regional. Também tem em seu âmbito integração com organizações latino-americanas. Somos mulheres e homens de diferentes raças, etnias, gerações e condições econômicas e estamos presente em 18 estados e no Distrito Federal. A Jornadas nasceu em 2004 e, atualmente, reúne 67 organizações entre movimentos, fóruns, ONGs, redes e grupos de pesquisa.

26.4.06

quando dá vergonha de ser mulher

Acompanhei nesta semana as reportagens que saíram no Terra e na Folha sobre o caso da garota que teve fotos de sexo entre “ela” e dois caras, publicadas na sua página no orkut e em blogs.

Fiquei indignada principalmente com a reação dos universitários da Fundação Eurípedes Soares da Rocha (UNIVEM – Marília/SP) que tumultuaram a aula que a garota assistia, para a ofenderem.

Já estava pensando neste texto quando conversei com um amigo: “o que mais me incomodou foi a reação da galera, às vezes da vergonha de ser homem” e, além de indignada, eu fiquei também envergonhada.

F.F., a garota das fotos, está correndo atrás de provar sua “inocência” – declarou que são uma montagem por não reconhecer seu corpo nelas, nem o sapato que aparece no pé do “corpo na foto”, etc... mas não é isso que me indigna ou envergonha.

E se fosse ela? E se ela resolvesse publicar as suas fotos? Exatamente em que ponto as pessoas passam a ter o direito de atirarem as pedras? Isso sim me deixa indignada! A construção da sexualidade é completamente individual. Não existe uma norma, uma regra, um dogma que deva moldar a sexualidade de ninguém. Se você acredita ou escolhe determinados padrões como certos e aceitáveis, isso vale para você e para o jeito como goza, mas não vale para toda a humanidade. Cada pessoa tem o direito de descobrir como satisfazer seus desejos e como dispor de seu corpo – SEU CORPO.

Então lembrei de quantas vezes já ouvi amigas e outras mulheres julgando garotas que não se enquadram nos padrões considerados moralmente corretos para a conduta de “uma moça”, por mais que nenhuma delas usasse este termo... Imaginei na hora como deve ser grande o número de meninas que participou da reaçãozinha e se sentiu no direito de humilhar F.F. Imaginei ainda, a reação daquelas que não se insuflaram contra a garota, mas deram suas opiniões nas rodinhas do intervalo ou nas mesas de bar da cidade “Eu não sei, mas que ela já era falada, era”; “Ah mas essa mina aí é meio galinhazinha mesmo”; e se ela for uma garota que curte as baladas da cidade “Ih! essa mina é mó loca!”; mas se ela for sossegada “É, essas com jeito de santinha são as piores!”. E tudo isso me envergonha – estou envergonhada de ser mulher.

Qualquer mulher poderia ter sido sacaneada como F.F. Qualquer uma pode ter desejos de trepar com dois caras e ainda publicar porque curte. Em diversas situações somos julgadas – se você fica com muitos caras, se dá na primeira noite, se fuma, se bebe, se curte balada até o sol nascer, se tem mais amigos do que amigas, se gosta de rock, se joga futebol, se sonha em ser engenheira naval, se quer virar madame, se pinta o cabelo, se faz tatoo, se usa fio dental na praia, se gosta decote... Somos sempre julgadas, nossa sexualidade está sempre sendo controlada, vigiada. E me envergonha ver outras mulheres na linha de frente do júri. Ver aquela que adora chupar o pau do namorado julgando a que chupa só quando ele merece, competindo pra ver quem é mais mulher – mais correta, mais justa, mais menina pra casar.

O que nenhuma delas assume, ou mesmo sabe é que o que está por trás de tudo isso é muito mais cruel. Agir e pensar assim é o mesmo que dizer “Bem feito F.F., você é mais uma que não passou no vestibular pra mulher, mais uma fora do meu caminho, eu vou ser aceita pela sociedade, você é só mais uma puta.”

Não conheço F.F, nem sua moral, nem seus desejos, nem sua vida, nada. Mas sei que ela é uma garota como eu. Sei que ela deve estar destruída com todo esse rolo. Sei que ninguém tem o direito de julgá-la, independentemente da verdade por trás desta merda toda. E isso é o suficiente para eu defendê-la. Isso é o suficiente para eu detestar toda a galera que fez de sua vida um inferno. Isso é o suficiente para eu ter vergonha de ser mulher, ter pena dessas tantas outras garotas que jogam com as mesmas cartas que o machismo e, ter força, mais força, pra lutar pelo fim desta dor e desta solidão que é querer mudar o mundo.

24.3.06

por que eu deixei de ser professora

há algum tempo estudo e trampo com educação. achei que nunca ia cansar, sempre amei pensar na educação como um ideal. mas, depois de um tempo cansei. cansei de estar institucionalizada desde que tinha 5 anos. cansei de ver meus amig@s estudando e trampando com coisas que pareciam maiores, mais importantes e até mais reais. cansei de estar fechada num mundo conservador e muito, muito machista. cansei da convivencia com professoras-mães. cansei de ver coisas que só eu via.

não me acho a bambambam da educação, mas por ser feminista, e nunca ter tido uma companheira de causa e profissão, via as coisas de uma forma que ninguém, com quem trampei por aí, via.

fiquei perdida: não tenho mais fé na educação? dediquei uma cara da minha vida à quê?

nos últimos tempos acreditei que poderia fazer diferença e promover uma educação, com meus alunos, que estivesse afinada com meus ideais de igualdade e justiça social. foi horrível perceber que além de enfrentar toda uma secretaria de educação por isso, de perceber fofocas sobre minha sexualidade nos corredores e, de me rasgar por uma educação voltada para a liberdade da sexualidade e dos papéis sexuais (ou dos não-papéis) teria também de enfrentar o futuro: meus alunos cairam nas mãos de outras, e o moralismo e conservadorismo são muito mais severos (e em crianças por vezes mais eficazes) com quem não os aceita.

deixei de ser professora pela ferida no meu coração. deixei de ser professora porque não suportava mais levar tiros na fronteira. deixei de ser professora porque precisava me reerguer: não deixei de ser pedagoga! ainda acredito numa educação que seja capaz de aceitar as crianças e a construção de uma sociedade mais justa. ainda acredito que a educação possa contribuir para que a igualdade entre os gêneros seja alcançada. ainda quero implodir a escola e fazer surgir uma nova proposta que vise a liberdade e a construção de uma sexualidade sem preconceitos, determinações ou premiações.

ainda sou pedagoga por uma educação que possa se livrar das bases machistas, homofóbicas, brancas e elitizadas. não sou mais professora – prefiro lutar a professar.

9.3.06

8 de março o caralho

Este ano eu não estava engajada em nenhuma manifestação ou evento de luta pela mulherada neste dia. Passei todos os outros correndo atrás de alguma coisa e nunca percebi o que as poessas pensavam ou diziam sobre ele. Fechada no ativismo feminista, parecia que só nós lembrávamos e agitávamos as "comemorações". Fiquei pensando em fazer um texto legal pra por no blog, mas não saiu nada. Acabei só colocando um button "Violencia contra mulher não tem graça nenhuma" na blusa e fui trampar. Aí começou a merda: parabéns, flores, elogio ao nome e às velhas "qualidades femininas"... Fiquei levemente irritada, piorou quando ninguém se dignou a comentar nada do meu button e fechou o tempo geral quando, à noite, entrei no orkut e recebi de algumas amigas aquelas mensagens toscas elogiando mulheres por serem lindas, fortes, delicadas, mães e filhas de deus... Ah! ainda teve os milhares de e-mail de lojas e afins aproveitando pra vender algo tipicamente "feminino". Nosso dia já era... virou motivo pra tudo pelo qual as costureiras grevistas (e as feministas que as homenageram por morrer lutando neste dia) tentaram mudar: submissão feminina. Este ano meu 8 de março foi mais triste: preciso voltar à correria.

2.2.06

Em sua maioria, os homens violentos não são doentes mentais.

Existe um costume de anormalizar o machista típico, aquele com as frases mais grotescas, vícios de personalidade, alcoolismos. Patologiza-se essa figura, e acredita-se que ser machista é uma questão de indecência, de mero desvio do padrão, de loucura antisocial, que nem novela do Manoel Carlos.

30.12.05

natal

Este ano não dei feliz natal pra ninguém. Nenhum cartão, nenhum e-mail, nada.

Não vejo felicidade nenhuma no natal. Não vejo felicidade nenhuma no nascimento da cultura cristã.

2000 anos de opressão feminina, de hierarquização das relações, de deus justificando poderes.

Por mim isto não se renova, por mim cristo não renasce. Mas para que não me julguem de todo radical, deixo minha recomendação àquel@s que mantém-se na crença cristã: Católicas pelo direito de decidir.

16.12.05

notícia

O excelentíssimo prefeito da cidade onde moro (Paulínia - aquela com a maior renda per capita do estado) teve uma idéia que julgou ultra-revolucionária e super feminista: diminuir a carga horária de todas as mulheres que trabalham como funcionárias públicas para que elas possam criar seus filhos. Como o salário daqui não tem aumento real há 10 anos e os abonos que ele dá, fingindo serem aumentos, são proporcionais a carga horária, todas as mulheres tiveram redução em seus salários. os homens passam a ser os únicos a terem direito ao abono integral já que são os únicos que podem trabalhar por 8h.

Então eu, feminista ingênua, comecei a despejar contra o cara levantando argumentos simples: a atitude machista do prefeitinho reforça o patriarcado na sociedade por reafirmar o homem como provedor do lar e a mulher como a única responsável pela criação dos filhos, retira a responsabilidade da paternidade, ignora as famílias em que as mulheres são as provedoras e desqualifica o trabalho feminino redirecionando as mulheres da cidade ao espaço doméstico.

Ouvi a seguinte resposta de uma pedagoga (formada pela unicamp) "ai eu achei ótimo micaela, eu vou poder criar meus filhos do meu jeito e nem ligo, pode diminuir até R$300, que é o que eu pago pra uma mulher cuidar deles".

Desisti... achei melhor desabafar aqui.

11.12.05

Onde nascem as Jumentinas

A menstruação dela atrasou, ela está preocupada. Já vai fazer quase um mês que "desceu" pela última vez, e ela já está rezando pra São Longuinho e o caralho a quatro. - "Que menina irresponsável, trepou gostoso, não foi? Agora você vai ter um filho por aquela fodinha. Sexo -> filhos. Prazer? Irresponsável!". Apesar desse...

3.12.05

mãe é outro gênero

Mãe é um outro gênero. "Patriarficado" e com construções incompreensíveis pra mim. Todas as mães que conheci seguem o estilo “doação completa”. Filhos/as em primeiro lugar, vida em função, felicidade atrelada, segurança de ser amada. Como mágica, a mulher se torna mãe e desaparece: seus desejos dependem de sua cria e, por isso, sua cria é sua escrava.

Mãe é tristeza. Não pela poesia, mas pelo formulário. Mãe sofre ou não é mãe. Mãe passa fome ou não é mãe. O que me assusta é mãe ser sonho de mulher... mulher não basta, não tem valor. Mãe tem função, reconhecida e respeitada. Você pode ser solteirona, coitada. Ou ser mãe solteira, esforçada. Você pode ser separada, safada. Ou ser mãe separada, lutadora. Você pode ser lésbica, enjeitada. Ou ser mãe lésbica... coitada da criança...

Mãe é pureza. De mãe ninguém desconfia, ninguém culpa. Só as professoras são capazes de tamanha injustiça, porque acreditam que são melhores mães que as outras. Mães científicas: pedagogas, psicólogas, terapeutas, fonoaudiólogas, assistentes sociais... mães enganadas.


30.11.05

daspu - hahahaaha muito bom!

Daspu, uma nova grife
Prostitutas cariocas lançam marca de roupas sensuais

O mercado da moda está prestes a ganhar uma grife idealizada e dirigida por estilistas que ganham a vida desfilando nas ruas do Rio de Janeiro – para vender o próprio corpo. São as prostitutas cariocas que, reunidas em associação, passarão a confeccionar e comercializar roupas de festa, figurinos básicos e o que chamam de modelitos de “batalha” – saias, vestidos e blusas ideais para exercer a mais antiga profissão. “Serão roupas insinuantes, sensuais, mas sem vulgaridade. Queremos resgatar a elegância das meninas do passado”, planeja Gabriela Leite, prostituta fora da ativa que dirige a Ong Davida e defende os direitos das colegas. A originalidade da idéia já bastaria para chamar a atenção, mas o nome escolhido para a empresa não poderia ser mais polêmico. Inspirado na famosa Daslu – batizada assim por pertencer a duas Lúcias – a nova grife, que começa a lançar moda em fevereiro, se chama Daspu, numa referência direta à ocupação das proprietárias. “Não sei se o pessoal da Daslu vai gostar”, ironiza Gabriela. Parte do lucro será utilizada para financiar os projetos da ONG, como as atividades de prevenção à Aids e a outras doenças.
O objetivo é que as peças da Daspu sejam usadas não só pelas prostitutas,mas pelo público. “Penso em saias curtas, mas não só isso. Também vamos desenhar algumas saias compridas com fendas, algo mais insinuante”, explica Gabriela. Roupas transparentes, nem pensar. “Isso é coisa de travesti”, descarta ela. O primeiro trabalho experimental foi o desenho para o bloco carnavalesco Prazeres Davida, que começou a ensaiar para o Carnaval na última semana.Estão envolvidas diretamente na empreitada 22 prostitutas e o capital inicial foi emprestado pela própria ONG. Com a venda das roupas, o dinheiro será restituído.A esperança é que a quantia apurada traga alívio para a instituição, nessestempos de poucos patrocinadores. “Não fazemos muito sucesso nessa tal de responsabilidade social. Qual empresa gostaria de associar seu nome a prostitutas?”, lamenta Gabriela. Ela estima que a média de ganho de uma prostituta que trabalha na rua é de R$ 1 mil mensais. Mas há as que ganham para pagar somente o almoço e o jantar. Por isso, a ONG tem como uma de suas bandeiras atuais a defesa do projeto de lei que equipara a prostituição a outras profissões, com os mesmos direitos trabalhistas. A diretora da associação reconhece que as chances de aprovação no Congresso não são grandes.

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