Esses dias publiquei aqui o poema "Insanidade", escrito descaradamente inspirado no filme "Cisne Negro" (Darren Aronofsky, 2011). Tinha acabado de assisti-lo e era preciso escrever, mas o filme mexeu tanto comigo nesse momento eu-eu mesma-e irene, que só o poema não esgotou todas as reflexões e todos os sentimentos aflorados.
Há dois pontos centrais e antagônicos que a história discute, a loucura e a perfeição. É incrível como o que é antagônico pode ser apenas a outra face da mesma coisa, talvez até o seu complemento, como na teoria yin-yang.
(Se você não assistiu o filme, sugiro que pare aqui esta leitura. Não acho que conseguirei dizer tudo o que desejo sem lhe entregar detalhes importantes da narrativa. Assista-o e volte. Adorarei conversar depois. Agora, para quem já assistiu, ou vai ler mesmo assim porque não é como eu e não perde o tesão se ficar sabendo de pedaços da história, continuemos.)
A loucura aparece já no começo, disfarçada. Não é loucura, é só uma pessoa tão envolvida com sua arte e seu trabalho, tão determinada em conquistar seu objetivo, que respira isso a cada minuto do seu dia. Não há outra opção de vida, de diversão ou de rotina. Tudo envolve a ideia de ser a melhor. É quase uma qualidade. Apesar de a mãe fazer a figura opressora, é também a representação do que a sociedade diz: "pessoas assim são especiais e merecedoras". E nós acreditamos.
É no auge do esforço, no limiar da chance de chegar aonde planejou, que ela descobre: falta alguma coisa, falta sentimento. Então assistimos a busca inconsolável da personagem por tudo aquilo que ela reprimiu a vida inteira em troca da disciplina e da técnica perfeita.
Ela era perfeita demais, técnica demais, precisa demais. Faltava-lhe pulso, aquela energia que o olhar transmite e nos faz acreditar na personagem. Ela não sabia viver uma personagem, só sabia dançar perfeitamente.
Como superar essa falha? Vivendo literalmente a personagem, já que sua vida não lhe oferecia emoções e sentimentos necessários. Assim, ela se confunde com a personagem que representará e leva ao extremo cada sensação, cada sentimento, enlouquece.
Ao fim do espetáculo, ela resume "Eu senti, perfeito".
A primeira reação norma é pensar "Doida!". Mas a sutileza da obra logo nos inquieta: "Será?". Será mesmo que dá para separar a loucura da perfeição na busca de um objetivo? Lógico que dá, há milhares de pessoas que conquistam seus objetivos sem enlouquecerem. Mas, no filme, se ela mantivesse o equilíbrio, ela conseguiria? Provavelmente não. Então, será que vale a pena enlouquecer por um objetivo? E a esta pergunta, tanto no filme como na vida, eu respondo: vale.
Não é só por isso que vivemos? Não é pela incansável busca daquilo que mais desejamos? Não é só pela luta para poder dizer "eu consegui, eu cheguei lá!"? O lá cada um sabe o seu - carreira, viagem, amor, conta bancária, etc. Mas não é só por isso? Se é só por isso, chegar a loucura, mas sentir a perfeição da conquista, vale a pena.
A ideia da loucura assusta, mas em suma ela é fazer o que não é aceitável socialmente, o que não é normal. Isso vai desde cultivar a preguiça, passando por transar muito com muita gente, ao assassinato.
Eu cultivei o equilíbrio, a sobriedade e a razão desde pequena. Ser capaz de lidar racionalmente com os sentimentos e a vida era um dos meus objetivos. Eu consegui. E isso não me serve pra nada. Não há interlocutor ou relação possível, porque as pessoas não são assim, as pessoas apenas sentem. Então, acho que é hora de enlouquecer.






