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23.6.13

O perigo da informação falsa


Acho que sou uma viciada em fontes e créditos. Talvez porque escrevo e acho muito, muito ruim, não receber os créditos pelo que eu fui capaz de fazer e outro não. Da mesma forma, me preocupa a autoria indevida. Falei sobre isso no texto "Você pode assumir o que pensa, não precisa dizer que foi a Clarice Lispector", abordando especificamente a atribuição de frases NADA A VER* a famosos. Entretanto, apesar de ser quase a mesma coisa, quero me centrar desta vez na atribuição indevida de frases aos políticos que não gostamos. 

Com a nova onda de manifestações e protestos, cresceu o número de compartilhamentos, postagens e afins envolvendo os anseios e críticas políticas da galera. Acho lindo. Acho que demorou. Fico realmente contente de o povo pensar "é, tem um monte de coisa acontecendo, preciso entender melhor isso". E aos pessimistas já respondo que sim, os acontecimentos despertaram muita gente que sequer sabia o nome do governador do estado. Provavelmente esse será um dos ganhos. 

Mas aí o povo nunca ligou muito pra isso e vai se enfiando, lendo sem entender muito bem e reproduzindo. Ou compartilhando, passando pra frente. Foi aí que minha sirene de perigo soou. Tenho visto várias publicações mentirosas sendo super curtidas, compartilhadas, retuitadas e blábláblá. Porque fazem isso? Pela velha mania de confiar e não ir atrás de verificar a veracidade da informação que está passando pra frente. O que é muito, muito perigoso. É como agir igual a Globo (eu diria imprensa, mas assim fica mais fácil de entender). 

Quando repassamos uma mentira, qual é o objetivo? Difamação. E difamar um político por frases ou atos não cometidos vai mudar O QUE!? Não seria interessante, ou inteligente, ou JUSTO, que apenas o difamássemos com as merdas que ele faz e fala mesmo? Sério que precisa inventar? Além de ser totalmente desnecessário, já que nossos políticos nos oferecem grande material de difamação pessoal diariamente, pode ser enquadrado de várias formas, até crime.

E quem será que joga a fofoca de tiazinha na rede? Quem será que atribui uma frase ou um ato a um político ou partido X, para difamá-lo? Está claro que o outro partido, o outro político, os outros interesses né!? E você está lá, pagando de mané e divulgando uma informação que pode prejudicar a eleição, a imagem, o país. Chega a ser ingenuidade (dependendo da sua idade). 

Você deve sim compartilhar o que pensa, o que acredita. Criticar políticos, governos, partidos, ideologias, sejam quais forem os que você escolheu. Mas o faça com críticas embasadas, não com mentiras. Leia, estude, informe-se, confira a fonte, a veracidade. Pense. Reclamamos dos políticos que mentem, então mentimos para detoná-los! Ó, que inteligente! 

Não dá pra desejar um país mais justo se você quer mudar as coisas na base da mentira.

(* detesto capslock, mas usei para aumentar a ironia - leia como seu amigo gay falaria). 

14.6.13

Eu também quero falar


Estou numa cruzada por divulgar e defender as manifestações em São Paulo desde ontem. Vi e li tanta coisa que não aguento mais: eu também quero falar.
Começamos assistindo milhares de pessoas saírem de suas casas para protestarem contra algo muito específico: o aumento da passagem de ônibus. Isso representa o aumento do custo para se viver numa cidade como São Paulo, que tem um dos maiores custos de vida do Brasil. Representa a diminuição do poder de compra de todos aqueles que dependem de transporte coletivo. Representa que cortes na vida diária deverão ser feitos: talvez a cervejinha no fim de semana (mas também pra que beber?), ou a manicure (isso não é necessidade!), ou ainda a bolacha recheada que a criança pede no mercado (e desde quando criança precisa disso?). Representa que sua qualidade de vida vai diminuir, seus poucos prazeres talvez tenham que ser cortados, alterados ou diminuídos também, representa que você vai viver como se deve: trabalhando, pagando conta e sem reclamar.
Mas as pessoas estão cansadas de perder e decidiram reclamar. Há muito tempo estamos perdendo. Perdemos perspectivas, perdemos qualidade de vida, perdemos a esperança. Quando se perde tudo há duas coisas que acontecem: você resolve correr atrás do que perdeu ou desiste. Acredito até que desistimos por muito tempo. Eu desisti. Desde a adolescência envolvida em algum tipo de luta por uma sociedade mais justa, acabei me restringindo aos textos (até porque é o que faço de melhor mesmo). 
Então, no desenrolar dos acontecimentos, percebemos que simbolicamente este aumento representa também um cerceamento do nosso direito constitucional de ir e vir. Não é bem assim, pode ir e vir se puder pagar o preço disso. 
Então ontem aconteceu o pior. E o melhor. Ontem ficou claro para todos nós: perdemos o direito de nos manifestar contra. Não se pode mais ser contra nada e se for esteja preparado, você será agredido. Pela polícia, pelo governo, por quem não concorda com você, por quem desistiu, por quem tem dinheiro pra pagar o aumento, por quem vai ganhar dinheiro com o aumento, pelas mídias tradicionais, por quem acha que só por que tem carro não será beneficiado com a sua luta, por quem não tem a menor ideia do que as palavras direito, manifestação, justiça e igualdade, significam.
Perceber tudo isso reacendeu em mim a velha chama adolescente de "eu quero mudar o mundo" e, nossa, como é bom senti-la viva no peito. Quando li sobre as manifestações no Rio, em Porto Alegre e em Brasília só conseguia pensar em uma coisa: isso galera, em todos os lugares, vamos pra rua. Vamos nos manifestar pelo direito de nos manifestar. Vamos enfim dizer: não, aqui não malandro! Que não seja mais um #protestosp, mas um #protestobr.

Há dois pontos mais práticos que ainda quero falar. 

 - Acha o valor irrisório? Faça as contas: ida+volta= 6,40. Considerando uma pessoa que pega apenas um ônibus para trabalhar. Mensalmente isso dá R$ 192,00. Só para trabalhar. Nada de lazer, visitar a família, ir ao médico. O salário mínimo (e sim, tem muita gente que ganha só UM salário mínimo) é R$ 755,00. Isso significa que sobraram para esta pessoa R$ 563,00 para sobreviver. Significa que ela gastará cerca de 25% do seu salário com transporte SÓ para ir trabalhar.

- Li muitas postagens criticando as pessoas que estão divulgando na internet o que lêem, mais ainda àquelas que estão se manifestando a favor. Sou contra vocês. Porque pior do que quem é contra as manifestações por alguma questão política, é quem é contra quem está enfim tentando fazer parte desta história de algum jeito. "Ah era Renan, era Feliciano, tomate, agora é SP". Sim. E se surgir outro problema social que incite as pessoas, será esse. Porque quando o moleque que não entende nada, nem é politizado, lê a manifestação de quem entende e decide compartilhar, ele está escolhendo um lado. Aliás, uma escolha mais favorável a mudança do que a sua, que se acha O espertão por tentar ridicularizá-lo. Aliás isso faz parecer que o problema é justamente este: você que não está fazendo nada se considera melhor do que quem está compartilhando informação. Já está mais que provado que informação é o grande motor das mudanças no mundo, chegou a hora de você repensar. Não tem nada que contribua realmente para o debate? Então assista, fique quieto, se informe, leia e depois decida o que dizer.

"que eu me organizando posso desorganizar
que eu desorganizando posso me organizar"
(Chico Science)

7.4.13

Você pode assumir o que pensa, não precisa dizer que foi a Clarice Lispector

Dias atrás me deparei com postagens no Facebook de frases atribuídas ao escritor (e ídolo) José Saramago. Na hora meu estômago embrulhou. Ver frases de autoajuda com ideias totalmente senso comum e um português muito mal escrito com o nome de um prêmio nobel de literatura, defensor ferrenho da língua portuguesa, foi chocante.

Frase atribuída que me irritou. 

Na hora já tuitei que era desrespeitoso e que antes de sair postando e compartilhando as pessoas deviam pesquisar a veracidade da autoria. Um amigo então acabou com minha alegria "o pior é que se for pesquisar, encontrará 'jurisprudência' no Google". É possível. É possível que se jogarmos a frase lá encontraremos o Saramago como autor, pelo simples fato que tanta gente já postou e reproduziu a ofensa, que ela está disseminada na rede. 
No entanto, se você pesquisar sobre o autor e também ler algo dele (um livro, um conto, uma entrevista) poderá comparar a linguagem e elementos que, se não forem conclusivos, ao menos suscitarão dúvida suficiente para não correr o risco de divulgar informação errada.
Mas porque isso é importante? Porque é desrespeito com o autor e sua obra, em alguns casos até calunioso. Você pode achar bonito, uma mensagem boa, mas pode ser absurda para o autor. O exemplo clássico disso são frases citando deus e fé atribuídas a Charles Chaplin. O ator era ateu. Então não é desrespeitoso com sua memória, lhe atribuir uma frase de algo em que ele não acreditava? Pense na situação contrária. Você crê em deus e eu começo a postar por aí fotos suas com frases dizendo que essa crença é ridícula e deus não existe. Você não se sentiria ofendido?


Você crê em deus e vai pensar "mas no meu caso, estou divulgando uma coisa que é boa". Entretanto, Charles Chaplin não acreditava e nem saía por aí discursando coisas do tipo, então você está difamando o autor na medida em que transforma a sua imagem pública e a sua obra em algo que ele não foi. É o velho colocar palavras na boca de outro.
A coisa é muito simples: gostou da frase, pesquisou, ficou na dúvida - publique só a frase. Aposto que a pessoa sem noção que gastou tempo fazendo imagem com foto e autor fake para uma frase que ela criou, não vai se importar com direitos autorais.
E isso nos leva a pensar o porquê. Por que uma pessoa prefere colocar um nome de famoso, atribuir sua opinião a alguém de renome, ao invés de assumir o que pensa? Medo das consequências? Não confia no próprio taco? Acha sua opinião tão pequena que não será suficiente para ter valor? Prefere mentir e se passar por outro a ser transparente sobre quem é?
Nenhuma das hipóteses levantadas levam à boas conclusões e, realmente, alguém assim não merece crédito.
Por isso, se a frase te levou a refletir sobre sua vida e acha que mais gente pode se beneficiar com esta reflexão, escreva você sobre isso. Cria a sua frase, aproprie-se do conhecimento, exponha sua reflexão. Chega de gente covarde que não assume quem é o que pensa.