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22.9.12

Ah a praia!


Até eu já estou cansada de me ouvir falar de Jericoacoara-CE. Desde que voltei esse é meu maior assunto. Mas como férias só rola uma vez por ano, tenho direito!
Sempre que viajo, meu olhar fica atento a tudo que posso aprender com os cenários, os ambientes e a arquitetura de cada lugar. Com Jeri não foi diferente, mas confesso que a natureza é quem comanda o espetáculo e de forma tão suntuosa que o resto não tem tanta importância. 
A vila está dentro do Parque Nacional de Jericoacoara, isso já determina muita coisa. As ruas são naturais, de areia. Sim, todas as ruas são de areia porque o local é inteiro assim. Onde não é vila, é duna ou praia. Tudo areia. 
A arquitetura segue aquela carinha de praia: linhas retas, com muitos elementos naturais, principalmente madeira e palha, muita luz e ventilação. Há casas e pousadas com ar mais sofisticado e outras mais simples, mas em geral todas apresentam estes elementos. 
A iluminação é toda subterrânea, não há postes e fios estragando as paisagens. Não há iluminação nas ruas, a noite ela fica por conta dos bares e restaurantes, o que dá um ar intimista delicioso. Quase todos os estabelecimentos ainda reforçam isso com o uso de velas nas mesas. 


O design e a decoração são mais trabalhados. O local, o artesanato, é repaginado e fica tudo muito contemporâneo. 
Uma das coisas que mais me chamou atenção foram as luminárias, lustres e pendentes feitos de escamas de peixes, flores artesanais e até gaiolas. Pranchas de surf, mosaicos e móbiles são elementos que vi em vários locais. Tudo muito criativo.
Essa foi uma das viagens que mais gastei com lembrancinhas! Há várias lojas que vendem peças de artistas locais, todas assinadas e originais. Um deleite para quem gosta de trazer peças de viagens e manter o estilo da casa.




Este gatinho de papel mâchè foi feito por Bruno Dalto. Adorei isso de eles valorizarem os artistas e venderem peças assinadas. Comprei na Jeriarte, onde pode-se achar trabalhos de vários artistas locais.





É de lá também este jogo de mesa e cadeira de brinquedos, feitos de lata. São super delicados, fininhos. Vou mandar enquadrar e colocar na minha sala de jantar. Haviam várias peças destes brinquedos, fiquei encantada.

Portanto, quem gosta de praia, areia, sol, vento, baladinhas intimistas, de valorizar a cultura local e tem espírito de aventura, vai amar Jeri.

19.9.12

Sobre minha avó, memórias e infância

Na casa da vó, em 1986. 
Sei que prometi posts sobre minha viagem de férias, mas aconteceu algo que atropelou a ordem das coisas. Minha vó faleceu. Era esperado, ela estava com 89 anos e há cinco precisando de cuidados especiais. Não teve nenhuma doença, o diagnóstico sempre foi de "velhice". Durante estes cinco anos, sabíamos que ela ia consumir até a última gotinha de energia que tivesse, para então dormir e não mais acordar. Foi assim. 
Recebi a notícia na segunda de manhã, para embrulhar o estômago e não conseguir engolir o café. Por mais que seja esperado, é uma perda. E perdas sempre doem. Eu sentia aquela dor e pensava "ela descansou" e ao mesmo tempo parecia que uma parte de mim tinha morrido. Foi assim que eu fiz uma mala para quem vai passar uma semana na casa da vó, coloquei livro (!?) e esqueci sabonete... Ficava ligando pra minha amiga no trampo e pedindo um monte de coisas porque no fundo, eu só queria era que ela estivesse do meu lado. 
A viagem de carro foi um momento suspenso no tempo-espaço. 5h conversando e rindo sem sentir o que estava acontecendo. A partir daí minha preocupação maior era minha mãe, eu queria estar forte para segurar a barra dela. 
Conforme fomos chegando perto, as memórias da infância foram voltando. Uma coisa que me surpreendeu foi a quantidade de ruínas que vimos na Rodovia Dutra. Muitas construções abandonadas davam a impressão de que grana é algo que não está ali como antes. O caminho até Bananal, principalmente a estradinha entre Barra Mansa (RJ) e a cidade, é lindo. A paisagem estava castigada pela seca em que estamos, mas mesmo assim é mais bonita que todo o oeste paulista (sorry!).
Nesse momento já começou a confusão de emoções - a tristeza pela morte da minha avó e a alegria de rever o lugar onde passei a maior parte das férias de infância. 
Entrar na cidade até arrepiou. Tem uma bifurcação, logo no começo, que povoa vários sonhos meus até hoje. Nunca é Bananal, mas o lugar é aquele. E eu já tinha me esquecido que aquele cenário vinha de lá. Depois foi aquela coisa de "isso é novo" "isso está igualzinho" "que pena, isso está destruído". Bananal é inteira tombada como patrimônio histórico. Isso significa que a cidade nunca vai mudar muito, porque não pode nem asfaltar as ruas de paralelepípedo. O que traz aquela ideia de cidade toda bonitinha e conservada... Mas não, Bananal está perdendo todo este patrimônio para o tempo. 
Os principais prédios da cidade, que são da época do primeiro ciclo do café, estão todos precisando de restauração. Por ser patrimônio, as pessoas não podem reformar suas casas de forma que mude as fachadas. Tudo deve ser restaurado e restauração é muito mais caro. Então está tudo lá, se perdendo. 
Não sei como funciona a questão de verbas para cidades assim, o que sei é que Bananal tem pouquíssimos recursos, a arrecadação é insuficiente para empreender a restauração de tantos prédios. Vez por outra conseguem algo. Como a restauração da Estação de Trem que virou um museu. Ficou maravilhosa, mas foi quando eu era criança. Depois, nunca mais. A linda estação inteira feita de placas de ferro trazidas da Bélgica está lá, deteriorando novamente. 


Há investimentos para atrair o turismo e realmente a cidade tem muita coisa pra ver. Além do centro histórico, Bananal é privilegiada com um rio limpo com vários pontos para banho, subindo a serra começam a aparecer as cachoeiras, ao fundo da cidade fica a Serra da Bocaina que rende muito para quem gosta de ecoturismo. Na cidade ainda tem muitas lojinhas de artesanato local e de doces caseiros desses que não existem mais. 
O segundo reencontro começou já no velório, conforme a família ia chegando. Encontrei parentes que eu não  revia há mais de 10 anos. E foi assim para todos ali, principalmente para o filhos da D. Maria Xavier do posto de saúde que mora na Boa Morte, esposa do João Mendes Leal, barbeiro. Além de reencontrar a família, eles reencontram os amigos de infância, as amigas da mãe, a cidade inteira.
Minha avó trabalhou no posto de saúde da cidade até se aposentar. O cargo para o qual ela foi contratada eu nunca soube, mas a verdade é que ela fazia tudo no posto que tinha só mais uma funcionária e o médico. Minha avó era conhecida como enfermeira e mais de um "desconhecido" que veio me cumprimentar falou "ah ela cuidou de todo mundo no posto, D. Maria era uma mãe pra gente".
Essa sempre foi a visão que eu tive da minha avó: ela levou a vida cuidando das pessoas. Cuidou de uma prima que assumiu, a minha Tia Carminha. Cuidou dos 5 filhos que assumiu como seus quando se casou com meu avô que era viúvo. Cuidou dos seus 8 filhos. Cuidou do irmão, meu Tio Chico, que tinha alguma deficiência mental que ninguém sabe ao certo. Cuidou do meu avô quando ele adoeceu. Cuidou da cidade inteira no posto de saúde. Então quando já estava aposentada e sem ninguém para cuidar, mudou-se para a casa da filha mais nova, que acabava de engravidar, para cuidar da minha prima. Enquanto ela esteve consciente, ela cuidou. E depois, já debilitada, ela manteve alguns hábitos de quem cuida, como arrumar a barra da nossa blusa sempre que a gente chegava perto dela, do mesmo jeitinho que fez a vida inteira. 
Por ser assim, ela reunia as pessoas a sua volta. Enquanto morou em Bananal, a família inteira ia para lá visitá-la. Depois que se mudou, a família quase inteira ia para Américo visitá-la. 


Ribeirão, poço do Bambuzal, 1991. 



No velório, minha vó fez a mesma coisa: uniu todo mundo novamente. E em muitos, despertou a vontade de ficar perto de novo. De não deixar novamente que o tempo passe tão rápido sem que possamos nos rever e tomar outro banho de rio. 






Um amigo de infância da minha mãe, disse a frase que mais resume tudo o que eu senti nesse dia: "Estou muito contente de revê-la, apesar do momento". 

25.8.12

Fênix II


Como prometido, aqui está a segunda foto, cheia de dor e orgulho.
No começo do mês fui lá, pintar a tatuagem. Cheguei sem saber ao certo o que queria, minha única certeza era "uma cor bem feminina". Eu fiz uma tatuagem grande, queria que a pintura a deixasse delicada. 
Fui com muito medo da dor. Lembrava o quanto doeu para riscar e ouvi TODO mundo dizer que eu ia sentir muito mais dor pra pintar. Então fiquei nervosa e quase desisti. Minha surpresa foi aguentar 3h30 de sessão, só parando uns minutinhos porque a outra perna dormiu... Doeu, claro. Mas já senti coisa muito pior na vida. Descobri com isso que sou forte, muito mais do que eu imaginava. 
Quando acabou, minha felicidade era tanta, me senti tão realizada, que nem lembrava mais da dor. Eu queria era mostrar pra todos como tinha ficado. Quando o tatuador disse que ia tirar uma foto pra postar na página dele, fiquei mais orgulhosa ainda: ele também estava satisfeito com o trabalho. 
Mas de todos os elogios que recebi, de todas as manifestações, a melhor foi a da minha mãe. Ela não gosta de tatuagens e por ela eu nunca faria algo assim. Pra mim ela disse que ficou bonita. Mas no dia seguinte minha irmã chega e diz "Quero ver, a mãe disse que ficou linda! Se ela disse, deve ter ficado!". É, se minha mãe que não gosta e não queria que eu fizesse elogiou, é porque ficou foda mesmo. 
Quando escrevi sobre o porque de fazer a fênix e tudo o que ela representa pra mim, um amigo fez o seguinte comentário: "Vemos agora como vc mudou. Quem disse que tatto é coisa de pele? Prefiro pensar que tudo já está lá, apenas com a diferença de que após algumas camadas de tinta, todos tem o mesmo prazer de ver o que antes só a gente via". E senti um cisco no olho ao ler, talvez pelo dos bebês... Mas é exatamente isso, essa sou eu, agora pronta e à mostra, para quem quiser enxergar.

13.8.12

Meus queridos ranzinzas



Quando me mudei para o interior de São Paulo descobri duas coisas: paulistanos são ranzinzas e metidos. Eu estava em minoria, a maioria da faculdade era de pessoas do interior e todos me tiravam de metida só por ser paulistana. Eles tinham razão do estereótipo, muito paulistano é metido. Paulistanos acham que só porque moram naquela metrópole monstruosa são melhores que o povo do interior e de outros estados. Eu odiava ter essa fama porque nunca pensei assim. Então, a partir daí, quando encontrava com um paulistano se vangloriando eu quebrava as pernas dele e sorria - um a menos nessa fama que eu não quero pra mim. 

Mas quando vinham reclamar que paulistano é ranzinza, que está sempre de mau humor, que não conhece nem o próprio vizinho blá blá blá, eu defendia minha cidade. Sim, somos assim. Mas e daí? Quem foi que criou uma regra que bom humor 24h por dia, 7 dias por semana é necessário? Quem foi que disse que só porque o cara é meu vizinho eu devo conhecê-lo? Ser educado, dar bom dia, boa tarde, boa noite é uma coisa e isso muito paulistano faz. Agora ser obrigado a conhecer todo o prédio ou toda a galera da rua é incompreensível pra mim. 

Sabe porque isso não nos magoa? Porque o vizinho pensa igual e também não faz questão de se tornar amigo só porque mora ao lado. Melhor que isso, é que nós simplesmente não estamos preocupados com a obrigação. Amigos se fazem mais pela proximidade de gostos do que pela localização geográfica. 

Imagino que para uma pessoa que está acostumada com pessoas mais sorridentes isso seja absurdo. Sei como é no interior, onde moro há anos. Deve ser mesmo difícil mudar para SP e enfrentar isso. Assim como foi difícil para eu me acostumar com o lado invasivo do interior. O público é muito mais público no interior e o conceito de privado é quase inexistente. Tudo que se faz é conhecido 24h por toda a cidade. Todo mundo é parente de alguém, estudou com alguém, mora perto de alguém. Então o que parece amizade, calor, simpatia e alegria no interior, me parece uma prisão dos bons costumes. 

Neste sentido, amo a liberdade de SP. A cidade é tão grande, tão independente do seu dia a dia, que te garante o anonimato. Não se é ninguém em SP e isso é libertador. Quando não se é ninguém, pode-se ser quem quiser. 

Há uma outra coisa que amo em SP e não encontro em todos os lugares: civilidade. A Avenida Paulista é mais limpa que o vilarejo inteiro. Lógico que numa cidade enorme nem tudo e nem todos são assim. Mas é o único lugar que fui e que as pessoas respeitam fila, respeitam os acentos especiais no metrô, dividem mesas com estranhos nos shopping, dão passagem no trânsito e sabem pra que serve a seta. São coisas pequenas que tornam a vida mais fácil. E SP precisa disso, ou nos mataremos.

Ficava indignada quando na província via as pessoas jogando o lixo pela janela do carro. Mais indiganada ainda quando eu dizia que isso era absurdo e o povo gargalhava me chamando de careta... De que adianta ser simpático com a cidade inteira, se você vai jogar a sua sujeira na cara de quem está atrás?

Outra coisa que gosto em São Paulo: ser bem tratada nos estabelecimentos. Em vários lugares que fui, como Brasília, as pessoas são super grosseiras e não dão atenção nenhuma ao cliente. Super normal seu pedido vir errado, demorar horrores, esquecerem sua bebida. Aqui no vilarejo dizemos que existe o padrão Paulínia de atendimento: grosseria com cara de Regina Duarte e tudo em falta. E não sou só eu, paulistana, que digo isso. Os locais também dizem. O que gosto é que eles reconhecem isso e riem. Como eu rio do mau humor paulistano. 

No entanto sou obrigada a admitir que SP nem sempre foi assim. Nas décadas de 80/90, quando passei a adolescência na metrópole, foi o limite que fez as coisas mudarem. Lembro que as pessoas não davam lugar no ônibus e isso começou a virar confusão. Tinha gente dentro do ônibus que intimava o folgado da vez, tinha cobrador que mandava o cara sair. Era sempre uma tensão de que ia virar briga. Mas aos poucos, tornou-se vergonhoso ser o cara que não dá o lugar. O mesmo com o lixo. Uma vez, eu estava segurando o papelzinho de Trident, porque não tinha lixeira por perto. Naquela de ficar brincando com o papel na mão, ele caiu. Lembro até hoje das caras feias no ponto de ônibus me olhando e que só viraram depois que eu me abaixei e peguei o papel. Se achei exagerado? Não, eu ri. Eles estão certos, a cidade já produz muito lixo para existir, não custa cuidar do espaço que milhões usam. 

Lógico que SP tem milhões de defeitos, assim como todos os lugares do mundo. Lógico que todas as pessoas de uma cidade não são iguais, somos indivíduos, únicos. Detesto generalismos. Tem gente mal educada em SP, tem bairros imundos, claro que sim. Assim como tem cidades do interior que parecem casinhas de boneca de tão cuidadinhas. O que mais me intriga é essa competição para ser melhor. Nem paulistanos são melhores, nem interioranos, nem nordestinos, nem manauaras, nem cariocas, nem europeus. É só que do meu lado, eu prefiro quem aceita meus defeitos e sabe rir dos seus. 

21.7.12

Fome


Não há palavra que defina melhor Rita do que esta: fome. Rita tem fome de tudo. É uma devoradora. Foi assim desde criança. Agora, aos 70 anos, olha para trás e constata isso. Sentada próxima a janela, olhando a grama verde lá fora, pensa que não há graça nenhuma em ficar olhando aquilo. Grama foi feita para pisar e  Rita queria era correr e descobrir o que vem depois. Tinha fome do que estaria ali guardado pra ela. 
Primeiro relembrou os amores. Foram muitos. Rita se apaixonava e mantinha uma fome constante por aquele homem até que esgotava todas as gotas daquele amor. Então, surgia outro. Não era possível pensar em um único amor para sempre, com tantos homens interessantes a se conhecer pelo mundo. Ninguém vive só de comer pizza. Existem muitas opções para se sentir apenas um sabor a vida toda. 
Alguns, a gente gosta mais e acaba querendo repetir quando dá. Foi assim com Antônio. Conheceu-o no Rio, em sua primeira viagem sozinha. Era o auge de Copacabana e Rita aceitou a sugestão de um estranho e foi experimentar o melhor filé do Rio de Janeiro. Durante o almoço, trocou olhares com o moço sentado do outro lado do salão e foi surpreendida por ele na calçada, se apresentando. Conversam andando na orla e ao fim da tarde já estavam apaixonados. Foram 10 dias no Rio vivendo este amor. Depois Rita voltou para sua vida, Antônio para a dele. Por muitos anos ainda se encontraram no Rio, passando ao menos um final de semana juntos. A fome por Antônio era constante. 
Um leve sorriso foi visto neste momento no rosto da senhora que apenas olhava a grama. Um sorriso para Antônio. 
Depois, relembrou os lugares. Rita morava em São Paulo e achava a cidade pequena. Viajou inúmeras vezes na fome de conhecer o mundo. Foi para todos os lugares comuns e para todos os inusitados que alguém indicava. De Paris a São Francisco, interior de São Paulo. Ia para todo lugar, se infiltrava, comia em todos os restaurantes, bebia em todos os bares, tirava todas as fotos e comprava todas as roupas. Até hoje tinha coisas trazidas dessas viagens entulhando a casa. 
Dessa vez foi impossível não rir mais descaradamente, sem se preocupar se alguém a enxergaria ali, olhando a grama e rindo sozinha.
Começou a chover. Uma chuva leve, dessas que molham mais que temporais, mas não fazem barulho. E Rita, relembrando a vida e sentindo todas as fomes saciadas apenas suspirou. Lembrou de Coco Chanel dizendo "é assim que se morre" e sorriu novamente. Adeus Antônio, adeus Paris. Enfim, eu não quero mais comer.