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15.6.11

Eu, Micaela H., 33 anos, ultrapassada


Estava lendo a minha querida revista TPM e essa verdade me bateu na cara: estou ultrapassada. Tudo porque na seção "Bazar" da edição de maio há um editorial sobre os super contemporâneos, pra mim vanguardistas, coletores menstruais. Trata-se de um copinho estranho que lembra um funil, feito de silicone cirúrgico, que é colocado para receber o fluxo menstrual podendo ficar até 8h dentro de você. E como uma usuária comenta, é só tirar, lavar e reutilizar... Senti uma mistura de dúvida, nojo, curiosidade e rejeição imediatas. Um copinho... um copinho dentro de mim o dia todo... aí vou ao banheiro, pego o copinho cheio, esvazio e lavo... lavo o copinho nojento... fica limpinho... coloco denovo... Estranho, muito estranho. Mas não é só isso, ainda há o apelo "ecofriendly"! Sim porque os copinhos são reutilizáveis por até 5 ou 10 anos!!! Nada de absorventes que levam cerca de 100 anos para sumirem do planeta. Eu me achava tão moderna por usar absorvente interno desde a adolescência sem medo de perder o hímem... Mas minhas sobrinhas vão usar copinhos. Senti-me a senhorinha que não quer usar o multiprocessador porque dá muito trabalho pra montar e lavar. Ainda bem que é caro, posso usar isso como desculpa pra ficar sem experimentar a nova super invenção ecológica, higiênica e fêmea resolvida do momento.

10.6.11

Cena de fim de um amor

Já era tarde quando Lúcia olhou pra ele e pensou "porque é mesmo que ele está aqui?" Dias e noites ao lado de um amor e de repente nada fazia sentido. Ficou olhando pra ele dormindo, era lindo. Decididamente ele era um homem lindo. Mas Lúcia só conseguia desejar sair correndo.
Esperou o sol nascer calmamente, olhando-o surgir no alto, brilhando no mar. Era como se o sol a chamasse. Vestiu a regata branca que ele tanto adora, pegou a mochila e saiu. Na sala deixou o Ben Harper chorando: era o único jeito de ir embora parecendo que tinha algum motivo.
Lúcia sabia que dentro de uma ou duas semanas ele ligaria. Só não sabia o que iria dizer. Se não fosse covardia, ela nem atenderia o telefone. Mas era cruel demais ignorá-lo. Lembrou de todas as vezes que ligou pra alguém sem receber resposta, não seria ruim com ele assim.
Em duas semanas o telefone não tocou. Era melhor assim. Ele tinha entendido, ficaria tudo bem. O ideal a fazer era retomar a estrada, Lúcia já estava naquela cidade há muito tempo.
Foi na rodoviária, olhando suas possibilidades, que Lúcia ouviu a voz de Carlos. Ela se virou e estranhou perceber que o seu coração disparava. Ele sorriu e veio em sua direção: "Ainda por aqui? Pensei que já estivesse longe desde aquela manhã!"
- É, fiquei aproveitando o mar... E aí? Tudo bem?
- Tudo sim! Acabo de chegar de viagem! Achei que andar por aí seria uma boa pra te esquecer - e ele sorriu tão sinceramente que fez Lúcia tremer, sentindo o estômago se contorcer.
- Ah! E foi? Teve sucesso?
- Ah eu nunca vou te esquecer Lúcia, foi ótimo! Segui sua receita e graças a você conheci a mulher da minha vida! Ela chega na semana que vem, vamos morar juntos.
O cérebro de Lúcia trabalhou em segundos: nunca vai me esquecer, me amava, mas em um mês encontrou a mulher da vida e vai morar com ela? COMO ASSIM!? Como isso era possível? Lúcia sentiu que suas pernas tremiam e ela poderia cair a qualquer momento. Mas sorria. Apenas sorria.
A atendente do caixa cortou a cena "próximo!" Lúcia se virou, andou até o guichê pensando no que diria. Olhou pra moça com vontade de chorar e se imaginou dizendo "ele vai casar com a mulher da vida dele e não me ligou, nem uma vez sequer" Mas apenas pediu "Belo Horizonte, por favor" e ficou pensando porque tinha escolhido BH. De qualquer forma, Lúcia nunca fez um plano de viagem mesmo, só queria ir de uma cidade a outra cada vez que um amor acabava.

8.6.11

Casa nova, Mafia Wars e paixão


Eu sou apaixonada pelo que escolho fazer. Não importa o que seja, mas me apaixono loucamente. Quando fui vegetariana, ao 14 anos, não podia ser só de carne, fui ao extremo e abandonei qualquer coisa que pudesse ter passado perto de um bichinho: até gelatina porque dizem ter tutano. Até hoje não sei se gelatina tem tutano, mas eu amava ser vegan, mesmo que cegamente.
Houve minha fase professora. Cheguei a ir trabalhar, por 6 meses, em período integral e só recebendo meio período. Mas era importante pra escola e pro meu currículo. Hoje eu não consigo nem me imaginar numa sala de aula, acho que teria meu melhor momento estátua.
Então eu fui fazer artesanato. E ficava a madrugada inteira, fins de semana inteiros, lixando e pintando. Ainda adoro isso, mas há anos não mexo nos guardados e crio alguma coisa.
Teve ainda a fase Lost. Eu baixava a temporada inteira e só saía da cama para pegar alguma coisa pra comer, na frente do note, claro. 10 episódios num dia. Quando a série chegou no final minha conclusão foi: Fui enganada. Se era pra mandar todo mundo pra luz, era só chamar a Melinda Gordon na primeira temporada que ela resolvia em um episódio. Triste. Nunca mais falei de Lost.
Cada época teve sua paixão, com propensão ao vício, estafante, que consumo até a exaustão e depois simplesmente pego implicância e nunca mais penso.
Foi assim que me enfiei no Mafia Wars. Momento sem grana e sem nada para fazer, joguei uns joguinhos do Facebook e depois de uns dias já dormia e acordava pensando na hora de jogar. Aí enjoei... ia parar, mas todo mundo me dizia para entrar num clã. Entrei no MBR e ah que paixão! Agora além de jogar eu conhecia pessoas, lutava contra outros clãs, era o máximo! Enjoei, me preparei pra abandonar tudo e fui convidada para ser administradora do clã. Eu não consigo largar o Máfia e o MBR.
Isso foi longe, as pessoas saíram de traz da tela e hoje têm nome, rosto, cheiro e cor. Elas entraram pra minha vida e era disso que eu mais precisava: pessoas.
Então eu mudei, novamente, de casa. Minha quinta casa no vilarejo, décima na vida. Até agora, a melhor de todas. Mas isso me deixou off por 20 dias. Vinte longos dias longe do Máfia, do MBR, das pessoas.
Achei que isso seria o fim do jogo na minha vida. Achei que assim eu conseguiria esquecer esta paixão e ver que vivo sem ela. Ledo engano! Essa paixão é séria... é daquelas que só acaba devastando a vida e corpo. Porque eu sinto falta do meu joguinho todos os dias. Um buraco enorme no peito.
Quando o vício chega neste ponto, só tem um jeito: lidar com ele. Mafia é igual cigarro, você começa sabendo que um dia vai parar, mas por enquanto tá bom assim. Um dia eu vou abandonar o Máfia, mas ainda não tenho outra paixão para substituí-lo. É a minha novela, o meu jogo de futebol. Só mais uma paixão.

26.5.11

alguém como você

de dia eu olho o sol e penso
num beijo calmo
que termina com um sorriso

eu ando com os olhos procurando
entre tantos estranhos
alguém como você

e digo para mim mesma
seja forte e enfrente
mas eu só queria
alguém como você

de noite eu fecho os olhos e penso
num abraço quente
antes de dormir

eu sonho procurando
entre tantos iguais
alguém como você

e respiro fundo dizendo
seja forte e enfrente
mas eu só queria
alguém como você

18.9.10

nada

passei noites imaginando
ele se fartando no meu corpo
eu apenas fecharia os olhos
e sentiria cada toque
de suas mãos, lábios e língua
passei noites imaginando
o prazer que sentiria
ao ver seu em seus olhos
seu desejo por mim
passei noites imaginando
que tudo poderia ser diferente
e então, eu só me decepcionaria
mas esqueci de imaginar
que nada aconteceria